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Os milagres de irmã Dulce

Irmã Dulce será a primeira santa brasileira , canonizada pelo carismático e reformista Papa Francisco.Para o catolicismo só é possível ser santo depois de morto e ainda assim, realizar no mínimo dois milagres que desafiem a razão e não tenham explicações científicas. Gosto desse entendimento católico sobre santidade, da impossibilidade de alguém vivochegar a um grau de dignidade e humanidade a ponto de ser santificado ou pior,auto-santificar-se. Afilosofia católica da impossibilidade de termos santos vivos nos coloca no lugar que todos deveriam estar: humildade, negação da soberba e constante vigilância para não nos colocarmos sobre outros seres humanos voando nas asas da ausência total de empatia e compaixão. Irmã Dulce nasceu em uma família rica, teve bons estudos e uma excelente orientação familiar, poderia ter seguido muitos caminhos, mas escolheu a caridade e compaixão como bússola de sua vida.Desde os treze anos de idade andava pela ruas de Salvador ajudando pobres, abandonados e …
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O fascismo na desordem das almas

O discurso fascista tomou conta de muitos corações deste país, esse fascismo não é nos moldes italiano, aqui ele se tornou um guarda chuva para diversas correntes racistas, religiosas, xenófobas e contra todo e qualquer direito humano que não seja do grupo dominante. O atual presidente, Bolsonaro, fez toda sua carreira política atacando minorias, apoiando grupos de extermínio e milícias, no entanto na Câmara dos deputados seus colegas o colocavam sempre na categoria de “louco” ou sem “representatividade”, erro que agora custa caro. A Rede Globo de televisão nunca foi imparcial, sempre teve lado, no entanto o ódio crescente pela Globo não é por causa de sua política de apadrinhamento de ditadores ou dos fatos que deixa de noticiar, mas por ser a Globo (ainda que timidamente) a emissora que mais contrata negros e ter negros na frente de programas e telejornais é algo inadmissível para os racistas e fascistas do país. É curioso que na Globo tenha mais negros que nas TVs públicas, mantid…

O instante poético de Nick Drake

Nick Drake nasceu em 1948, viveu apenas vinte seis anos. Nascido na Inglaterra foi um ponto fora da curva de sua geração. Cantor de voz melancólica, autor de canções intimistas e delicadas Nick em nada lembrava os artistas dos anos de 1960, não segurou bandeiras políticas, introspectivo, pouco expositivo, sem muitos amigos e solitário compositor. Antes de se dedicar a música estudou Literatura em Cambridge, esse período foi decisivo na sua formação, anos mais tarde ao começar a compor suas letras eram carregadas de poeticidade, refinadas e bem estruturadas. A discografia de Nick Drake se resume a três discos oficiais, o primeiro deles foi “Five Leaves Left” lançado em 1969, foi recebido com frieza pela crítica, era melancólico e poético demais para os anos revolucionários da década de 1960. Depois do lançamento de mais dois discos, Nick foi vencido pela depressão e voltou a viver com os pais. Perto de sua morte escreveu:
"Eu não sinto nenhuma emoção sobre nada. Eu não quero rir nem c…

O rock Simbolista da Violeta de Outono

A década de 1980 foi um dos momentos mais criativos do país, em especial na música, uma década que revelou várias personalidades que marcariam a cultura do Brasil nas décadas seguintes. Entre tantas bandas uma estava entre as mais marcantes daquela geração: Violeta de Outono.
A formação clássica da Violenta de Outono é: Fábio Golfetti (Voz, guitarra) Angelo Pastorello (Baixo) e Cláudio Souza (Bateria). A Violeta faz valer a delicadeza do nome, a primeira vez que ouvi aquelas músicas, aquela voz, aquele baixo bem marcado, a bateria que me remetia aos tambores da minha Bahia, mas sem pegada afró, lembrei-me de Cruz de Souza, Alphonsus de Guimaraens e Pedro Kilkerry. A música da Violeta de Outono tem, talvez seja involuntário, essa conexão literária tanto na voz do Fábio Golfetti quanto nas suas letras simbolistas, também na sonoridade éter e Via-Láctea. Uma banda paulistana que difere das outras bandas de São Paulo justamente pela delicadeza de uma música singularíssima. A Violeta de Outo…

O esquecido

Hoje fui procurá-lo, andei pelas ruas tristes e empoeiradas, entrei em igrejas, supermercados, padarias e praças. Procurei nos olhares, em algum sorriso, nos bares e cinemas, procurei em pessoas que dizem ter com ele uma relação íntima, não o encontrei.  Foi fácil encontrar seu nome, encontrar quem diz ter nele toda razão da vida e comunhão com que há de mais sagrado, seu nome é doce e fácil de ser pronunciado, mas ele dificilmente é encontrado. Parece ter sido esquecido, agora, é apenas um nome distante do seu maior ensinamento: ninguém precisa morrer ou matar em seu nome ou em nome do seu pai, é preciso apenas amar, amar uns aos outros. No entanto, amamos apenas os que nos são iguais, amor ao próximo não é negar contradições e nem discordâncias, mas também não é jogá-lo na cova dos leões e ficar rindo do lado de fora. Amar uns aos outros não exclui a justiça e justiça não é vingança. Transformaram seres humanos em pontes, nunca se sabe ao certo se somos amados ou amam o que temos o…

Secos e Molhados

Quando em 1973 chegava às lojas de discos o primeiro LP dos “Secos e Molhados” foi um choque, não havia nada perecido em nenhum lugar do mundo. Se os Secos e Molhados tivessem tocado no festival de Woodestock certamente causaria no público uma sensação prá lá de lisérgica, os Secos e Molhados era mais desconcertante e contracultural que a maioria das atrações do famoso festival. Nos vocais dos Secos e Molhados estavam Ney Matogrosso e João Ricardo, o primeiro de voz aguda o outro tinha a voz grave, contraponto perfeito. O Visual do grupo era andrógino, criaram seres mitológicos com todos os elementos das vanguardas artísticas dos anos de 1960. A sonoridade dos Secos e Molhados estava longe do pop água com açúcar das Fms, era mais próxima do Rock com raízes na música portuguesa (João Ricardo é português) e caipira do inteiro de São Paulo, tudo misturado com maestria. Nunca a poesia foi tão bem tratada pela música como nos Secos e Molhados. Foram musicados poemas de Vinícius de Moraes, Cas…