sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
A sensação como realidade
Ligo a TV e ouço jornalistas falando em índices que colocam o país como uma quase maravilha do mundo, com seus problemas minorados, com um povo sorridente e feliz com nossa entrada no clube dos que mandam no mundo. Sempre me pergunto: de que país estão falando? Do Brasil que vivo não é, tenho certeza.
De alguma maneira enquanto o Brasil real enferruja ou apodrece aos nossos olhos, o Brasil midiático gestado pelo condão mágico da falácia publicitária oficial encanta a todos. Estabeleceu-se a “sensação” como programa de governo.
Sensação de felicidade, de que tudo vai bem. A sensação é de que este agora sempre foi melhor que qualquer outro e que dando continuidade a essa forma neo-socialista e extremamente perigosa podemos ser mais felizes ainda do que a sensação do que somos agora.
Quando se consegue concretizar ambições, atingir metas, viver o que se ama e saciar a sede de tantas paixões, vive-se sensação real de ser feliz, realizado e pronto para novas buscas.
O que acontece hoje é que troca-se todas as realizações pelas sensações, fica-se motivado e “realizado” apenas por se sentir capaz de ter ou na possibilidade de ter sem nunca conquistar absolutamente nada.
De repente a vida foi transformada em uma grande televisão de cachorro, o cachorro que para enfrente a padaria, saliva, se emociona com o frango girando, assando a sua frente, o cachorro sente uma agradável sensação de prazer, mas nunca vai comer o frango, a agradável sensação de prazer é suficiente para que ele sinta-se realizado.
A sensação de que tudo é melhor sem mesmo nunca ter sido é uma arma poderosa, influência todos os níveis sociais. A democracia é cada vez mais ameaçada, por esse sistema neo-socialista que não aceita criticas, não aceita questionamentos, assim forja-se uma democracia mentirosa, de mão única, educa-se para os olhos, mata-se a reflexão e fica cada vez mais difícil amar e ser amado.
Contatos: http://edineysantana.zip.net ou ediney-santana@bol.com.br
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Sangue menstrual
Cidades sem alternativas, tédio, cansaço social, futuro cinza e o presente amargo abre as portas para todos os acasos e a droga é um desses acasos. Marasmo cultural, aceitação pacífica do presente sem vida, acostumar-se com o que se tem, o mal como senhor absoluto das relações, a sensação de que não adianta lutar, que o vento contra é mais poderoso que os desejos de mudança, tudo isso pavimenta o caminho para o caos social.
Dirigentes zumbizados pelo poder, servem ao poder como quem transa com cadáveres, o medo de falar, o silêncio como carta da cidadania, a cidadania sem cidadãos ou cidadãs, o olhar cabisbaixo, juventude envelhecida, juventude sem juventude, tempo de cólera, ser o que o outro faz de si, negar a si mesmo em nome da trágica relação: vantagem pessoal x crime organizado.
Nada importa: o sangue no dinheiro, a morte nos sorrisos. Nada importa, importa ser, mesmo que seja um ser sem substância humana.
Vida em sempre escuridão, sexo previsível, amores descartados, vandalismo emocional, regras matemáticas nos sorrisos, amizades sem razão, cartelização das emoções, deuses sintéticos, masturbação sociológica, governos dementes, povo conivente.
Dores, suores, trambiques, mortes, miséria gerando fortunas, corpos de miseráveis como adubos das fortunas dos magistrados do crime. Droga, droga e silêncio, perdas não sentida, vida absorvente menstrual, sangue menstrual nos lábios da menina violentada na esquina, desejos e supérfluo, vida supérflua.
Extermínio, beijos e cancro, bom coração em pus, a política do “tudo é lindo/ tudo é maravilhoso”, espermas nas mãos, útero seco, uva passa nos olhos, gozo seco, deus e o diabo rindo de nós no paraíso, gilete no coração. Tédio, alegria, sabão em pó.
Crime e evangelho, meu coração pede calma, minha alma pede guerra, chiclete, música, masturbação, desejo de você, cama, prego na vagina, imagens da miséria, não utopia, não realidade, vivo, como arroz e macarrão, vão se foder o congresso e todos os seus gestores, não quero para mim essa alegria palafita.
Sou sertões e filmes medievais. Um perfume no ar nos celebra, apesar de tudo, nossa vida. Mãos dadas, o presente nos chama, o presente nos ri, o presente nos diz o quanto somos nós o sangue menstrual que não desce, o útero que nos traz vida.
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Alegria
Alegria é beijar uma estátua de gesso e imaginar-se em uma cena de “Meia noite em Paris”, descobrir que o amor pode ir além do almoço hora marcada, sopa fia. Chegar aos quarenta e fazer da sua casa escadarias para o mundo, roubar beijos entres as decadentes estrelas do Bar Vermelho.
Embriagar-se de absinto é a única maneira de valsar comigo mesmo e não morrer de tédio. Alguém ascende um cigarro, beijo a boca de Ernest Hemingway, renasce poema e flor nos lábios de Cecília Meireles. A solidão embrutece os sentimentos. Como um cigarro esquecido no cinzeiro somos nós quando em coração inimigo fazemos ninho.
Nenhuma fuga é possível, nem mesmo para Paris: viver e morrer sem sair do lugar. Não há mistério algum na morte, a morte é o não lugar, a não utopia. A vida é essa coisa misto de framboesas e masturbação em banheiro sujo e frio.
Escrevo como a simplicidade de quem ler o alfabeto de trás para frente, a poesia de andar com uma menina linda na minha Paris, acordar pela manhã com o gosto de saudade na boca.
*"Não sou um sistema", tão pouco uma sacola de supermercado. Meia noite beijo a prostituta linda imaginada por Woody Allen.
O melhor tempo é o tempo das nossas inquietações, sem inquietações não há coração, não há vida, ninguém é mais ou menos feliz em tempo algum, todo tempo que temos é o exato momento que respiramos.
Quero ouvir Enya, estou cansado de guerras, quero migrar para um filme da década de 1920, sonhar com aquela menina linda aos olhos de Woody Allen, sou um coração sem pretensões, mas delicadamente inquieto como um beijo sob a chuva fina de uma Paris sedutoramente falsa.
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*Frase do filme “Ponto de mutação”, Bernt Capra.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Transforme seus erros em acertos
Um dia você acorda e descobre que aos sessenta anos de idade pode começar a viver o que nos seus vinte não viveu, que amor não acontece só uma vez. Um dia você acorda e percebe que não adianta bater em ponta de faca, que a fé pode até não remover montanhas, mas pode te ajudar a cartoná-las.
Um dia você acorda e percebe que além do que você tem pode ainda conquistar mais, esse mais chama-se paz, equilíbrio e alegria.
Você descobre que é falível e deixa de cobrar a si mesmo uma perfeição que não existe, entende que só erra quem é humano e saber-se humano é saber lidar com os fracassos e não afogar-se em mágoas sufocando os possíveis sucessos.
Um dia você descobre que passou a vida trabalhando, preocupado em juntar dinheiro e acabou mesmo foi sendo escravo do trabalho, tendo como patrão o dinheiro que você nunca usou para ser feliz, porque o medo da pobreza fez você viver como pobre e você nem percebeu.
Um dia você acorda, olha-se no espelho e nota pela primeira vez o quanto envelhecera, mesmo tendo ainda vinte poucos anos, percebe pela primeira vez que se envelhece também espiritualmente, mas que ainda é possível viver intensamente sua juventude. Um dia você acorda e percebe o quanto de coisas boas deixou escorrer por entre os teus dedos, mas nota também que sempre é possível construir coisas novas e o novo como cantou Belchior, sempre vem.
Um dia você acorda e deixa de ter ideias fixas, deixa de opinar sobre tudo, percebe que não saber tudo é o natural da nossa vivência e que assumir a ignorância é o primeiro passo para aprender.
Um dia você acorda e larga mão de insistir em um amor que só você sente por uma pessoa que te olha e não te enxerga. Você percebe que o que mais tem neste mundo é gente e mesmo ninguém sendo de ninguém, há sempre alguém para amarmos e a solidão às vezes é uma ótima conselheira.
Minha mãe sempre diz: quem quer a gente ama, quem não quer a gente deixa. Vivemos muito pouco para sempre andarmos sem sairmos do lugar, como se estivéssemos em uma esteira rolante da mediocridade, ande! Em algum lugar você representa luz.
A primeira paz a ser conquistada é a do lar, a natureza nunca vai ter fim, o meio ambiente artificial criado por nós sim, a natureza se reinventa lentamente pelo tempo e nos seus planos talvez um dia esteja a nossa extinção como gênero humano, como pessoas ela nos trata como bonecos tolos coroados pela ilusão que diante a grandeza do universo temos alguma importância.
Olhe bem como tratamos a natureza, você acha que ela sempre vai ser tolerante conosco? Então faça a sua parte, respeite os seres não humanos como você respeita os seres sangue do seu sangue, carne da sua carne. Não é só uma questão de bondade e respeito, é uma questão de sobrevivência.
Um dia você acorda e percebe que amigos não são os que sempre riram das nossas bobagens, que muitas vezes seus amigos eram amigos tão somente do que você tinha ou representava e que chegou o momento de encontrar pessoas sinceras que olharão nos teus olhos com carinho e ternura não importando o que você tem ou o que você representa.
Não force amizade com pessoa alguma, não finja ter uma intimidade que não tem, mas seja sempre gentil e solicito, não discuta com os que têm opinião formada sobre tudo, sobre os que são convictos das suas santidades.
Um dia você acorda e nota que o mal tem um lado bom, o mal nos revela as coisas como elas são, não só as coisas, mas as pessoas também. O mal retira a mascara das pessoas impolutas, poço das virtudes e nos mostra o quanto são elas cruéis e mesquinhas, então entenda o mal como um grande aliado do bem.
Se você tem filhos ande por aí com eles, vá à praça, tenha momentos de descobertas mútuas, entenda quem é a criatura que te chama de pai ou mãe, sair com os filhos é um momento único. Não troco um momento com minha filha por nenhum outro momento com pessoa alguma.
Um dia gostaria de acordar, andar pelas ruas de Santo Amaro e encontrar uma cidade não agressiva, em que as autoridades sejam do bom, tenham a sua volta pessoas do bem para fazer o bem e não pessoas que dormem e acordam pensando como destruir vidas, assegurando a perpetuação da desumanidade como meta entre as relações e o estado permanente de angústia como instrumento de poder e ódio.
Um dia você acorda e percebe que a cura da sua doença incurável, o acidente que você escapou, os caminhos que te levaram para longe de pessoas ruins, que tudo isso foi a natureza te oferecendo uma nova e talvez única chance de ser gente e ser feliz... Porque poucas pessoas são solidárias na dor e tenha certeza quando ela chega quase sempre estamos ou ficamos sonzinho.
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domingo, 8 de janeiro de 2012
Um dia sem paraíbas e baianos*
São Paulo, Rio de Janeiro e muitas cidades do Brasil do Sul amanheceram um caos, desaparecem milhões de paraíbas e baianos. – E cearenses? alagoanos? Sumiram também, você não sabe que no Brasil do sul todo nordestino é baiano ou paraíba?
Muitos grupos racistas e xenófobos saíram às ruas do Brasil do Sul para celebrar o desaparecimento em massa dos nordestinos, pelas ruas muitos Brasileiros do Sul não escondem a alegria pelo desaparecimento de tantas pessoas, que dizer nordestinos.
Mas nem tudo é festa, ambulâncias que eram dirigidas por paraíbas no Rio de Janeiro estão paradas no meio da rua com pacientes dentro, algumas emissoras de rádio saíram do ar em São Paulo, locutores baianos não apareceram para trabalhar.
A polícia do Brasil do Sul alerta para que ninguém deixe suas casas, parte do contingente policial é nordestino e também está desaparecido, em Brasília o governo tentou esconder a euforia, mas analistas dizem que se isso continuar em curto prazo o Brasil do Sul será uma grande nação livre dos ignorantes do norte.
Aviões estão voando no piloto automático: controladores de voos, pilotos e agentes de limpeza dos aeroportos nordestinos desapareceram. No Rio de Janeiro não aconteceu o tão esperado carnaval, quase todos os membros das escolas de samba eram paraíbas e simplesmente sumiram.
Esgotos entupidos, falta água potável, rede de gás com vazamento provoca explosão e morte no bairro do Morumbi em São Paulo, funcionários baianos das companhias de serviços não foram ao trabalho.
Grupos neonazistas reclamam a falta de atividade como espancamentos e esfolamento de baianos, na falta de baianos mijam nos postes como cachorros. Nos presídios muitos presos sumiram, fato comemorado pelo secretário de segurança nacional que a todo instante agradece por essa força na limpeza do Brasil do Sul, mas agradece a quem?
Toneladas de lixo acumulam-se pelas ruas do Rio de Janeiro, em Minas Gerais mosquitos da dengue gigantes comem os olhos das criancinhas, nos estados do sul a febre amarela fala Alemão ou será Russo? Ou italiano? Seja como for não há o que faz com a soja, com os sumiços dos paraíbas e baianos, quer dizer nordestinos, não há trabalhadores suficientes nos portos para embarque e desembarque da colheita.
No Espírito Santo ruas desertas, carros abandonados, floretas em chamas, redes de TV vazias, esgotos invadem as ruas, trezentos milhões de litros de urina misturada com fezes correr para o mar. Não há quem conserte ou limpe a sujeira.
Entre tantos desaparecimentos um em especial chocou o Brasil do sul, foi o do famoso apresentador de TV Van Kafagam Lalabelibam. Ícone das estelas globais e aspirantes, Van Kafagam Lalabelibam se orgulhava da sua origem Inglesa salpicada de Alemão e incestuosamente Francesa, mas seu nome verdadeiro era Severino da Silva, um típico baiano ou paraíba. Escondia isso a sete chaves, mas desapareceu como qualquer outro nordestino. A Emissora em que trabalhava pede desculpas ao público e diz que os próximos contratos com novos apresentadores só serão assinados mediante testes de DNA para comprovação da origem e certificação da raça emitida pelo SSR, Serviço Superior da Pureza da Raça do governo federal.
O exército patrulha as ruas, a ordem é matar qualquer remanescente nordestino, autoridade temem que estejam contaminados com o vírus do desaparecimento e contaminem os Brasileiros do Sul, além disso, o governo mandou construir um gigantesco muro para separar o nordeste do Brasil do Sul.
Não temos mais informações sobre o desaparecimento dos nordestinos, neste exato momento nossa redação está quase vazia, muitos jornalistas, embora escondessem isso, eram nordestinos, paraíbas e baianos. Estamos com dificuldades para gravar novas matérias, mas não recuaremos em registrar esse momento histórico... O que é isso... Estou desaparecendo... Mas só sou 25% nordestino...socor...
* Crônica livremente inspirada no filme “Um dia sem Mexicanos”, 2004 - Europa Filmes, do diretor Sergio Arau. O filme de certa maneira conta a história de nós nordestinos nas terras do Brasil do Sul, gostaria de re- filmá-lo com o nosso sotaque, nossa cor e quem sabe ainda com a esperança de vivermos em um país que nos respeite. Sou nordestino e não desapareci.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
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