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O país mais triste do mundo

Alegria e felicidade são dois sentimentos parecidos, mas não são iguais. Quando ouço alguém falar que determinada pessoa e alegre sempre me pergunto: será que é feliz também? Alegria é algo de momento, felicidade é durável, é um estado de espírito que mesmo atravessando momentos tempestuosos não se deixa abater, é aquela força vital que faz de quem a tem fortaleza. O Brasil é um país alegre, tudo aqui pode lembrar um grande carnaval, seja um desfile militar, marchas religiosas ou protestos contra o fim das aposentadorias. Tudo parece ter sido ensaiado para mostrar ao mundo nossa pequena grandeza de nação. No entanto o país passa longe de ser feliz. O Brasil é o país mais violento do mundo, em nenhum outro lugar se mata tanto como aqui, em nenhum outro lugar se mata tanto por banalidades. Quem mais mata são criaturas que se parecem como homens, suas vítimas podem ser criaturas que também se parecem com homens ou qualquer pessoa que tenha a infelicidade de cruzar o caminho desses abomi…
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A militarização das escolas e a falência da família

A rigor não existe ensino militar, não por acaso chama-se academia militar a instituição responsável por transformar civis em militares. O que há são escolas em regime disciplinar militar, focadas sobre tudo na disciplina e respeito à hierarquia. Escolas (ditas) militares tradicionais, são para poucos, algumas reservam metade das vagas para filhos de militares, o restante para alunos que sejam aprovados em rigorosos testes de seleção. Há uma onda de militarização de escolas ou de gestão compartilhada com militares, essas escolas não têm relação alguma com as escolas tradicionais que operam em regime disciplinar militar. As recentes escolas militarizadas foram escolhidas para tal por serem escolas em que servidores são reféns de alunos violentos e da violência da comunidade em que a escola pertence. Como pai ficaria constrangido se minha filha só respeitasse o porteiro, merendeira, zeladores, vigias e professores das escolas se ao seu lado tivesse um soldado da polícia. Respeito deve-se…

Simon and Garfunkel's

Quase São João. Estou só em uma casa de quatro quartos, em verdade, comigo dois adoráveis cachorros: Perséfone e Francisco. O país segue sua rotina macabra de violência e mentiras. É preciso ter fé nos ossos do corpo para não enlouquecer, estou em convívio exato com meu melhor e pior. Simon and Garfunkel’s e Adriana Calcanhotto no Youtube, vozes tão antigas da minha saudade. Minha mãe ligou, com quase 80 anos ela tem medo que eu me mate. Ontem chorei, ontem pedi perdão por pecados que não cometi. Sinto cheiro de poeira, minha língua tem gosto de poeira, meu coração dói tanto. Tenho dó maior de mim. Acho bonita minha sombra sobre as poças de água. Tenho vontade de fumar cigarros, quem sabe uma maconha, coisas que nunca fiz. Meu amor...

Regionalismo e literatura

Millôr Fernandes escreveu que quando uma ideia envelhece se muda para o Brasil. Gosto dessa frase porque ela é tragicamente assertiva sobre nossa intelectualidade que deprimida e envergonhada de suas origens necessita de vozes estrangeiras que sustentem suas visões de mundo. Essa minha critica ao comportamento intelectual não é a defesa da ojeriza ao estrangeiro, longe é a defesa que em um dialogo com o mundo eu não me envergonho de quem sou. Pela direita ou esquerda o Brasil é intelectualmente cativo da Europa ou Estados Unidos. Escritores nordestinos de meados do século passado eram chamados de "regionalistas”. Termo racista e xenófobo para desqualificar a literatura produzida no nordeste. Ao adjetivar nossa literatura e música de regionais era o mesmo que dizer que éramos primitivos, incapazes de dialogar com o que a imprensa sulista e seus críticos chamavam de universais. Para essa gente ,ser regional era ser ruim, a voz do povo nos romances, poesia e música causava certo asco n…

Depressão

O corpo parece cheio de fumaça, nos olhos não eram lágrimas, ácido. O dia amanhece, horas avançam e não há vontade de levantar da cama, o sol é forte, mas sentem-se frio, muito frio. Como a carne pode enferrujar? Pedaços do corpo vão ficando na solidão espiritual que navego.  Mais uma porta, fechada, cimentada, lança chamas. Não é ausência de Deus, é consciência plana de Deus. Chás, álcool e primavera na tristeza do verão. Interlocutor de si mesmo, diálogo com as sombras, coragem e medo. Meditação, corpo dormente, corpo que se abraça, corpo que se dissolve.  Não há saudade do passado e nem desejo de futuro, há apenas o presente e suas contradições. Medo da raça que sou, da impiedade da ração que sou, medo da alegria assassina dos que creem que depressão é uma opção, falta de reação ou coragem diante a vida.  Na TV monstros devoradores de sonhos, ruas vazias, ruas que cruzam meu caminho, não vou me matar, só por hoje, não me matarei. Quero ver as gramas crescerem, meu sol envelhecer, quer…

Os machos e o feminicídio

O feminicídio é um crime quase sempre familiar, é dentro de casas, em lares aparentemente felizes que mulheres têm encontrado a morte, e a morte chega pelas mãos de quem um dia fez juras de felicidade eterna e trocava o nome da companheira por adocicados “mô”, “amor”, “paixão”, “minha vida” e por aí vai. O sentimento de pose pode até parecer amor e confundir, mas não é. Mulheres são transformadas em propriedades de machos que reagem violentamente quando se sentem ameaçados pela possibilidade da perda de um ser humano que foi transformado em coisa, em objeto de servidão. O macho é o estágio primitivo do homem, o homem é uma construção social, aprende-se a ser homem nas relações sociais ainda na infância, mas muitos machos são estimulados ainda crianças a permanecerem machos. É filho que escraviza os pais, torna-se adolescente agressivo e adulto impiedoso. O macho quando criança é visto pelos pais como um ser único no mundo e a esse ser tudo será permitido. Um engano que custará caro na v…