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“Vela acesa”*
De: Ediney Santana

Em Santo Amaro( Recôncavo da Bahia) tudo ou é supervalorizado ou diminuído ao extremo. Há um certo orgulho nas coisas pequenas, como também há para muitas coisas grandes um certo descaso. Há uma padaria na cidade que exibe fotos de “grandes” santo-amarenses, sinceramente às vezes fico pensando qual a contribuição que muitos deles deixaram para nós e para a geração que cada um pertenceu. Exemplos de abraços fraternos, sorrisos sem o ardil da conveniência , exemplo de atitudes éticas e solidariedade? Na Santo Amaro cinzenta dos nossos dias estamos carentes de tais exemplos.
Mas afinal o que é ser grande? Ser um barrão do açúcar é ser grande? Ser um cantor famoso é ser grande? Fama, poder e sucesso não têm nada haver com ser grande. Pode-se ser super famoso, mas isso não garante ser alguém humanamente admirável, pode-se ser poderoso e unir o poder a exemplos de bondade e justiça, mas isso é raro.
Ser grande para mim é ser como José Silveira. Não pela medicina que ele abraçou com paixão, não pela literatura na qual mesmo sem ser, digamos escritor, não fez feio, não pelo hospital e fundação que criou, não por ser o único santo-amarense que fez elogios rasgado a Feira de Santana, jóia e orgulho do povo sertanejo.
José Silveira foi grande por reunir nele características raras no seu tempo, no tempo de seu pai (que era um tipo de comunista espiritual) e na nossa época de relações rápidas e amores fúteis. Mas afinal que características foram essas?
José Silveira foi um homem de paixões incondicionais. Devotado não a pessoa humana, mas ao gênero humano. Por isso se aventurou pelo mundo buscando conhecer esse gênero e acabou por ficar na Bahia, a Bahia foi o seu grande projeto de humanidade.
Ele não foi um gênio da medicina, sua contribuição para a humanidade não foi gestada em laboratórios, embora tenha sido um cientista e contribuído muito para o combate a mais romântica das doenças, a tuberculose. Foi um homem de respeito consigo mesmo e extremo amor as causas que defendeu, dedicado aos estudos não para glória pessoal, mas para a alegria sua de poder ajudar a quem estivesse sofrendo. Um homem apaixonado pela idéia de aliviar o sofrimento das pessoas ,tudo isso temperado com um forte sentimento de ser da humanidade e não dos humanos.
No momento em que se fala tanto em respeito às diferenças, ele (nas palavras de Jorge Amado que passaria facilmente por um alemão) nascido em uma terra negra e sofredora nos deixou um legado de dignidade e respeito.
Cuidou de quem ele procurou cruzar ou quem cruzou o seu caminho, abraçando e ajudando a todos, não foi só um homem de gabinete, era também um homem da prática, da ação.
Ter o coração aberto para o mundo e para suas criaturas é uma característica rara que só os mergulhados em uma incondicional humanidade têm.
Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente em sua última visita a Santo Amaro. Perguntei se seria possível tirar um foto, ele riu,disse que sim e me perguntou: “Você é filho de quem?” disse-lhe que não era daqui e que certamente ele não saberia de que família eu era. Despedi-me ele sorriu docemente, olhei para sua esposa, D. Ivone, tinha um olhar triste e cansado, dias depois ela morreu. Nunca esqueci aquele encontro com aquele grande homem sensível, tranqüilo e profundamente humano.
ediney-santana@bol.com.br
http://edineysantana.zip.net
* “Vela Acesa” é um dos livros publicado por José Silveira em 1980

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