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Por que Santo Amaro não é como a Camurujipe?


Todo mês de março meu pai entrava em férias, o destino sempre era o mesmo: Barra, povoado pertinho de Mundo Novo-BA onde nasci. Acordávamos cedo e íamos para pracinha 14 de junho ou para a Agência da Camurujipe na Rua Direita e pegávamos um ônibus até Feira de Santana. A Camurujipe nos levava até a entrada do sertão, de lá pegávamos outro ônibus, da Cristo Rei.
Na volta, no final das férias, ao chegarmos a Feira de Santana pegávamos outro ônibus da Camurujipe. A Camurujipe naquela época era sinônimo de Santo Amaro.
Um dia durante as festas da Purificação ouvi o saudoso “J" (locutor famoso em Santo Amaro-BA) narrar com entusiasmo: “Auto Viação Camurujipe uma empresa genuinamente santoamarense!”. A Camurujipe é uma empresa santoamarense, mas hoje, eu sei, não é sinônimo de Santo Amaro.
A Camurujipe é sinônimo de sucesso:  padrão de qualidade,  respeito aos seus usuários, competência administrativa,  habilidade para lidar com crises,  constante modernização. Definitivamente Santo Amaro não acompanhou os avanços dessa empresa “genuinamente santoamarense”
Ao assumi a Secretaria da Educação de Santo Amaro pude em poucos dias perceber na prática o que de teoria já sabia: Santo Amaro é uma cidade irreal, de um irrealismo quase fantástico. Uma cidade que na ficção é perfeita e ao que parece muitos dos seus habitantes não conseguem enxergar o óbvio: ao contrário da Camurujipe, Santo Amaro não é sinônimo de qualidade de vida, ao contrário da modernização constante da Camurujipe Santo Amaro não é sinônimo de avanço.
A cidade durante anos foi administrada, por longos períodos e raras exceções, por sucessivas hordas de irresponsáveis. Pelas migalhas de uma porca elite, deixaram derrubar nosso centro histórico, por total falta de amor ao próximo, deixaram boa parte da nossa gente em pobreza objeta, por desrespeito ao futuro deixaram que sucessivas gerações vivessem na escuridão do analfabetismo.
Mataram o que de melhor uma cidade pode ter: a crença dos seus filhos no presente. Presente que por aqui chegou mergulhado no horror do chumbo, das misérias de uma escravidão branca, velada no horror da violência institucionalizada, na falta do poder público nos bairros mais carentes.
Definitivamente em Santo Amaro há muito por fazer. Acho absurdo o amor pelo passado escravocrata da cidade, acho  absurdo o saudosismo que muita gente sente dos engenhos de açúcar. Acho-me também cansado e ao mesmo tempo otimista, confuso, com medo de que eu tenha também criado meus monstros saudosistas durante esses anos todos.
Certo é que para Santo Amaro ser sinônimo de progresso responsável é necessário um pacto político e social no qual fique de fora o conservadorismo,  cafonismo e o mais trágico: O “Eu” centralizador e corrupto que espiritualmente controla as artérias da cidade.
Talvez, caro leitor ache estranho, um paralelo entre uma empresa com uma cidade, me refiro ao a empresa que ela representou para  Santo Amaro, sua história de conquistas. Até hoje a maioria dos ônibus da Camurujipe tem placa de Santo Amaro. De certa forma é prazeroso e motivo de orgulho para todos nós termos o nome da nossa cidade ligada a uma empresa que é sinônimo de sucesso.
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