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Segue Resenha do meu livro " O Evangelho do Mal" escrita pelo Escritor Gustavo Rios publicada na Revista Verbo 21.


Mordaz é isso
Por Gustavo Rios



Pondero quase sempre em minhas resenhas o fato do sujeito ter ou não alguma coragem para escrever. Não que seja isso um pré-requisito. Mas, quando o assunto é opinar sobre livros que gosto, prefiro acreditar que sim. Que boa parte se resume a isso, além de todo o bla bla bla teórico sobre estilos e influências.





O escritor Ediney Santana veio para confirmar minha louca teoria. De que, sem vontade, sem algum tipo de sentimento genuíno, ou sem coragem para por num papel o que de fato nos comove, publicar um livro se torna arriscado. E se pode pagar um preço muito alto pela propensa ousadia.


Vejamos: leio, agora com menos freqüência, textos em que pessoas defendem o status de maldito de seus objetos de resenha. É tudo muito simples: se o artista optar por fazer prosa, ele deve pegar um ou dois personagens, enfiá-los numa situação sujinha e pronto. Sendo poesia, ele deve escrever textos que ninguém compreenda, recheados de palavrões ou, coisa mais arriscada ainda, tentar fazer poesia com a simplicidade do Bukowski, como se estivesse contando uma breve história de dor e dúvida.


O problema é que a dor e a dúvida muitas vezes não passam de recalques. Ou daquele fingimento que tanto se conversa por aí. É preciso um pouco de caos, amigos. E de alguma estrada tortuosa.


Em seu Evangelho do Mal (Papel Virtual Editora, 117 páginas, 2004), o rapaz que fez “do mundo um delírio errante”, nos mostra que, se você escolheu essa escrita, ou se ela te escolheu, como acho que foi o caso dele, tenha força o suficiente e se liberte dos grilhões – sei que essa frase é de uma obviedade terrível - e de todo o receio que te cerca. Arrisque, ainda que isso implique no total estranhamento de sua obra. Ou num estranhamento parcial, de uma maioria canhestra que sonha em ser maldita no playground do prédio – isso tudo enquanto o vigia cochila e os cães cercam suas belas varandas.


Ediney, que é autor de outro belo livro de poemas, Anfetaminas e Arco-Íris , não pede licença. E segue com sua dor, seus berros, seus devaneios mortais e mordazes. Tem talento também para criar imagens líricas sem derrapar. Um sujeito que, se não estiver me enganando - no que de melhor a palavra engano abarca -, saca que esperança não é bem aquilo que nos mostra os especiais de fim de ano da televisão. Muito menos a bondade sacal e emplastrada de velhas senhoras em seus jantares beneficentes.


Claro que em suas 117 páginas ele não se resume somente a isso. Como de hábito, o autor homenageia ídolos sem recorrer a técnicas batidas e cutuca o engessamento pela fé (Imagem e Semelhança, página 33). Aborda temas de cunho social, sem usar da lógica obtusa de quem supõe ser a literatura uma luta de classes com algum estilo (“Na campina branca / o sertanejo / ara a terra como quem / prepara a própria cova... / Na fábrica triste o / operário aperta / botões como quem / reconhece a si mesmo” – Iguais, página 53); fala do amor, numa boa. Além de tirar um grande sarro com o satanismo (Lam od ohlegnave o, página 54), se é que a intenção foi mesmo essa.


Sua linguagem permanece com o mesmo vigor. Suas experiências com o nosso idioma continuam a não serem meramente repetições de recursos literários: possuem vida própria; suas metáforas se encaixam, abrem possibilidades (...”Poetas existem / para quebrar vidraças e fazer rir os palhaços” – Poetas, poemas e poesia, página 57). Ele tem a manha. Entende do riscado, só precisando mesmo ter bastante cuidado com questões mais práticas, nem por isso desimportantes, tais como revisão dos textos e no uso de termos estrangeiros.


Mas foi a dor que me pegou de jeito. Foi essa dor, que não tem nada a ver com algo piegas e choroso, que me motivou a escrever isso aqui. Claro, espero não estar limitando a visão de sua obra, já que, como ele mesmo diz, sua intenção foi escrever sobre as “contradições da sua época”.


Sabemos, eu e você, que poesia para ser boa não precisa ser dolorida. Nem tão somente ser um mero encaixe de palavrinhas que rimem ou que tenham um efeito sonoro qualquer. Ela pode ter leveza e nos erguer do chão. Pode ser hilária e festiva, nem por isso menos genial e marcante, tal e qual uma puta comemoração setentista que continua atravessando décadas, como certamente Waly Salomão queria que fosse. Pode ser até mesmo um poema-piada.


Mas nunca deve ser tão somente uma piada.


E Ediney pode parecer até exagerado em alguns momentos. Só que, mesmo no seu exagero, nas suas metáforas corrosivas, bem como naquelas em que o mundo do imaginado cabe de sobra, ele sabe o que faz. Ainda que um ou outro texto te incomode, saiba que ali existe uma verdade. Que pode não ser a sua, nem a minha. Mas que é uma verdade bruta, exposta da melhor forma possível, por um sujeito que sentiu o que escreveu.


SERVIÇO:



Livro: O evangelho do mal

Autor: Ediney Santana

Editora: Papel Virtual, 2004

Preço: não informado

Contatos: ediney-santana@bol.com.brEste endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo



Fonte:
http://www.verbo21.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=290&Itemid=129

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