Em nosso mundinho há estrelas cometas

















Nascemos em uma pequena cidade da Chapada Diamantina, Mundo Novo, na Bahia. Como meus bisavôs, avós e avôs, tios e tias e muitos primos e primas, minha mãe era analfabeta. Meu pai também não sabia ler nem escrever, mas por um gesto de solidariedade seu e de minha mãe conseguiu em 1976 um emprego na Rede Ferroviária. Antes meu pai trabalhava na lavoura, no campo.
Com o emprego saímos de Mundo Novo para Santo Amaro no Recôncavo baiano. Meu pai, minha mãe é eu.
Cidade distante da nossa, sem um conhecido se quer. O que aliviava a solidão era o fato de muitos colegas do sertão que trabalhavam na ferrovia também foram transferidos para Santo Amaro quando a linha da “grota”, como era chamado o setor norte da ferrovia no sertão, foi fechada.
Meu pai morreu aos 42 anos de diabetes, eu tinha 16 anos e mais dois irmãos menores.
Antes disso eu, meu pai e minha mãe tínhamos uma barraquinha na qual vendíamos cigarros, geladinho e cocadas.
Meu pai era doce e gentil comigo, mas descuidava da formação formal, formação que nem ele e nem minha mãe tiveram. Mas por algum motivo minha mãe cobrava de mim resultados bons na escola.
Perto da nossa barraquinha havia uma banca de revista (até hoje está lá) minha mãe me dava dinheiro para comprar revistas, em especial as de Mauricio de Souza, e de tanto ficar por lá o dono me chamou para vender jornais. Revicoque, é o dono da banca de revista, foi uma pessoa importante na minha formação em leitura, podia ler todas aquelas revistas e jornais sem pagar nada, antes de trabalhar lá e depois que sair ele me deixava ler tudo.
Acordava às 4:00h ou 05:00 da manhã e ia,com apenas 14 anos de idade vender jornais. Não era trabalho infantil, na concepção de minha mãe e meu pai era um maneira mais útil e prática de educação.
Trabalhei muito na infância, mas os livros sempre estiveram por perto, os livros chegavam pela boa vontade de minha mãe, que mesmo sem nunca ter lido um sabia da importância deles em casa.
Não fui um aluno brilhante, fui medíocre, tinha problemas de aprendizado e repetir o ano várias vezes. Minha mãe fazia o que podia comigo.
Anos depois a Universidade Estadual de Feira de Santana abriu um campus em Santo Amaro, minha mãe praticamente me obrigou a prestar vestibular. Fiz a fui aprovado. Mas não foi fácil, minhas deficiências eram terríveis.
No dia da primeira prova, choveu muito em Santo Amaro,( era um dia de domingo a cidade estava em festa pela padroeira) o telhado da nossa casa desabou, gritei para minha mãe que não iria no dia seguinte fazer mais prova alguma,. Obviamente ela me obrigou a ir.
Estudei letras, publiquei livros, quatro ao total. Estou alfabetizando minha mãe, ela é um pouco preguiçosa, mas vai bem.
Quando Wagner ganhou a eleição fui escolhido para ser coordenador de educação na minha cidade. Recentemente fui Secretário da Educação do município de Santo Amaro. Então tenho um anjo da guarda de carne e osso, minha mãe.
Soube ser mãe, amiga, entender minhas biritas, minha idéias de menino maluquinho inventado não por Ziraldo, mas por ela e meu pai, minhas dificuldades de aprendizado... Somos felizes. Decididamente somos felizes.
ediney-santana.@bol.com.br
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A foto acima é da estação ferroviária da Barra em Mundo Novo em 1956

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