Encontro com Vinicius de Moraes


Todo mundo sabe que Vinicius de Moraes e Tom Jobim escreveram inesquecíveis canções como Garota de Ipanema entre outras tantas. Todo mundo também sabe que Vinicius de Moraes é autor de vários sonetos rasgados de amor e paixão nos quais quase sempre a mulher é santificada ou tem sua sexualidade realçada ao extremo. Belos sonetos como: Soneto da Separação, Soneto de Intimidade, Soneto de Fidelidade e mais uma infinidades de sonetos preciosos e bem escritos.
O que muita gente desconhece é o outro lado da poética de Vinicius. Um poeta extravagante, delirante, uma poesia cheia de imagens fortes, coloridas, doloridas, mística que pouco lembra o poetinha de Ipanema em seu Rio de Janeiro de sol, mar e chopadas no Amarelinho.

No poema “A uma mulher” o poeta escreve:

“Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino.
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne”

São versos fortes e carregados de dramaticidade lírica. É interessante notarmos, neste poema a mulher é vitima e não uma deusa intocável de amor puro e angélico, o “amor” do poeta aqui é material, sufocante no qual a mulher não tem chance alguma de outro tipo de realização além da carnal.
O Poema “A legião das úrias” é um dos grandes momentos poéticos de Vinicius. Esse poema longo descreve uma noite de agonia na qual o poeta utiliza uma sequência de imagens delirantes e fortes para provocar o leitor nesse viagem mística e ao mesmo tempo cruel.


“Quando a meia-noite surge nas estradas vertiginosas das montanhas
Uns após os outros, beirando os grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Passam os olhos brilhantes de rostos invisíveis na noite
Que fixam o vento gelado sem estremecimento.
São os prisioneiros da Lua. Às vezes, se a tempestade
Apaga no céu a languidez imóvel da grande princesa
Dizem os camponeses ouvir os uivos tétricos e distantes
Dos Cavaleiros Úrias que pingam sangue das partes amaldiçoadas.
São os escravos da Lua. Vieram também de ventos brancos e puros
Tiveram também olhos azuis e cachos louros sobre a fronte ...
Mas um dia a grande princesa os fez enlouquecidos, e eles foram escurecendo
Em muitos ventres que eram também brancos mas que eram impuros.
E desde então nas noites claras eles aparecem
Sobre os cavalos lívidos que conhecem todos os caminhos
E vão pelas fazendas arrancando o sexo das meninas e das mães sozinhas
E das éguas e das vacas que dormem afastadas dos machos fortes.
Aos olhos das velhas paralíticas murchadas que esperam a morte noturna
Eles descobrem solenemente as netas e as filhas deliqüescentes
E com garras fortes arrancam do último pano os nervos flácidos e abertos
Que em suas unhas agudas vivem ainda longas palpitações de sangue.
Depois amontoam a presa sangrenta sob a luz pálida da deusa
E acendem fogueiras brancas de onde se erguem chamas desconhecidas e fumos
Que vão ferir as narinas trêmulas dos adolescentes adormecidos
Que acordam inquietos nas cidades sentindo náuseas e convulsões mornas.
E então, após colherem as vibrações de leitos fremindo distantes
E os rinchos de animais seminando no solo endurecido
Eles erguem cantos à grande princesa crispada no alto
E voltam silenciosos para as regiões selvagens onde vagam.
Volta a Legião dos Úrias pelos caminhos enluarados
Uns após os outros, somente os olhos negros sobre cavalos lívidos
Deles foge o abutre que conhece todas as carniças
E a hiena que já provou de todos os cadáveres.
São eles que deixam dentro do espaço emocionado
O estranho fluido todo feito de plácidas lembranças
Que traz às donzelas imagem suaves de outras donzelas
Que traz aos meninos figuras formosas de outros meninos.
São eles que fazem penetrar nos lares adormecidos
Onde o novilúnio tomba como um olhar desatinado
O incenso perturbador das rubras vísceras queimadas
Que traz à irmã o corpo mais forte da outra irmã.
São eles que abrem os olhos inexperientes e inquietos
Das crianças apenas lançadas no regaço do mundo
Para o sangue misterioso esquecido em panos amontoados
Onde ainda brilha o rubro olhar implacável da grande princesa.
Não há anátema para a Legião dos Cavaleiros Úrias
Passa o inevitável onde passam os Cavaleiros Úrias
Por que a fatalidade dos Cavaleiros Úrias?
Por que, por que os Cavaleiros Úrias?
Oh, se a tempestade boiasse eternamente no céu trágico
Oh, se fossem apagados os raios da louca estéril
Oh, se o sangue pingado do desespero dos Cavaleiros Úrias
Afogasse toda a região amaldiçoada!
Seria talvez belo - seria apenas o sofrimento do amor puro
Seria o pranto correndo dos olhos de todos os jovens
Mas a legião dos Úrias está espiando a altura imóvel
Fechai as portas, fechai as janelas, fechai-vos meninas!
Eles virão, uns após os outros, os olhos brilhando no escuro
Fixando a lua gelada sem estremecimento
Chegarão os Úrias, beirando os grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Quando a meia-noite surgir nas estradas vertiginosas das montanhas"

Como podemos ler no poema acima, há uma sequência estonteante de imagens. O poeta mergulha em um labirinto místico e profano para nos evocar a “Legião das urias” a legião de Deus ou dos deuses.
O poeta Vinicius de Moraes é um dos bons momentos da nossa literatura, mas que um poetinha de Ipanema foi um sujeito de versos fortes, coloridos e às vezes cinza na busca por seu tempo poético.
ediney-santana@bol.com.br
http://edinesantana.zip.net

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys