A humanidade é um equivoco
De: Ediney Santana


No livro Cachorros de Palha: reflexão sobre humanos e outros animais (Record 2005) seu autor John Gray relata a chegada de navios europeus na Tasmânia em 1772. O povo que vivia por lá era pacato e não tinham nenhum tipo de contato com a Europa ou outro. povo
No momento da chegada dos europeus o total de nativos era de cerca de cinco mil, anos depois em 1830 o total da população nativa foi reduzida para apenas 72 pessoas. Gray nos relata a crueldade dos europeus contra os nativos. Alguns homens foram castrados, usados com escravos, a pele dos nativos eram retiradas e vendidas em troca de recompensa pega pelo governo. Cenas horrendas como a cabeça dos homens arrancadas e amarradas em volta dos pescoços de suas esposas, as crianças golpeadas até a morte eram comuns. Para as mulheres o sofrimento não foi menor, transformadas em escravas sexuais.
Em 1869, conta John Gray, quando o último macho da tasmânia foi morto, William Lanner, sua sepultura foi aberta por um membro do governo, um tal de Dr. George Stokell, fez da pele do morto uma bolsa para fumo.
No mesmo livro John Gray relata o sofrimento de uma família negra na Geórgia. Sam Hose foi executado sem ter cometido nenhum crime, tão somente por ser negro. Sua execução foi transformada em um grande acontecimento. Escolas tiveram aulas suspensas, foram tiradas fotos da sua execução e transformadas em cartão postais.
Quando sua esposa Mary Tuner soube do sofrimento e morte do marido jurou vingança. O resultado foi: uma multidão de brancos enfurecidos foi até sua casa, ela levada a força para perto de uma árvore e após amarrar seus tornozelos a puseram de cabeça para baixo em uma árvore. Ainda com vida abriram seu ventre, como estava grávida de oito meses, seu filho caiu ao chão e teve a cabeça esmagada pela multidão. Tuner foi morta com vários tiros, toda cena foi assistida por crianças que riram e pareciam estar em uma festa.
A história do povo da Tasmânia e da família negra da Geórgia são exemplos das barbaridades que ao longo dos anos os povos têm cometido uns contras os outros. A nossa história é cheia de crimes e barbáries. Somos uma raça presunçosa, arrogante e perigosa. No entanto há algo que não podemos e nunca vamos vencer: a natureza.
A natureza trata os seres humanos como trata qualquer outro ser que por aqui viva. Nada nos garante que para a natureza estejamos no topo da cadeia evolutiva, nem nós nem nenhuma criatura viva.
Quanto mais avançamos em ciência e tecnologia mais nos matamos e tentamos inutilmente controlar o meio ambiente. Frases como: “estamos acabando com a natureza” “ estamos destruindo a nossa casa”. São sem sentido. Antes que possamos destruir a natureza ela vai nos varrer da face da terra. Podemos modificar a paisagem e o meio ambiente, mas em hipóteses alguma podemos destruir a natureza.
Nos barbarizamos porque acreditamos na ilusão de podermos dominar uns aos outros, em verdade nem a nós mesmos dominamos, nem somos senhores e senhoras do nosso destino.
Se nos apegarmos ao mito do cristianismo seremos levados à ilusão de que podemos optar entre o caminho do bem ou do mal, nada mais equivocado, nossas escolhas são aleatórias. Não somos responsáveis pela nossa permeância na terra, pela nossa vida.
As guerras, os conflitos políticos são partes de uma grande jogatina com nossas vidas, criada para nos fortalecer a ilusão de que somos realmente os seres mais evoluídos a viver neste planeta. Quando não passamos de um enredo traçado durante anos pelas bactérias que se juntaram e nos fizeram e que certamente o dia vão também nos destruir.
Não há verdades, não há mentiras. Nós simplesmente existimos, para natureza pouco importa nossos signos ou nossa justiça. A natureza nos desconhece no papel o qual nos colocamos.
Quando aquelas crianças riram do martírio da senhora Tuner, elas tão somente estavam sendo animais, como qualquer outro na natureza, rindo da sua presa indefesa.
Os seres humanos diferem dos outros animais não pela linguagem, ou por terem consciência que existem ( se é que existem), nada disso. Somos diferentes dos outros animais tão somente porque entre nós são realçados os piores traços animalescos que há: deslealdade, arrogância, trapaça, mentira, estupidez, sensação de superioridade, moralidade e falta de verdade em quase tudo que se faz. Assim como qualquer primata brincamos com as desgraças dos seus pares e não se vacila em trapacear para vencer.
Há também o outro lado.Somos mestres em nos santificarmos, em nos colocarmos em superioridade moral,em fazer de alguns modelos de virtudes e exemplos de bondade e sinceridade. Não somos bons nem maus: somos seres de um complexo sistema vivo que não reconhece nossa bondade tão pouco nossa maldade.
John Gray retirou de uma frase de Lao-Tesé o titulo para o seu livro e pego para mim essa noite o mais profundo significado dessa frase: “ Céu e terra não têm atributos e não estabelecem diferenças: tratam as miríades de criaturas como cachorros de palha”
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