A babel de Alexandria nº2



Faltou luz no Bairro do Sacramento onde moro, neste momento escrevo à luz de velas. Me vem à cabeça o tempo dos copistas medievais que passaram à vida inteira copiando inúmeras obras das quais muitas chegaram até os nossos dias e ajudaram e ajudam na formação de tanta gente.
A Biblioteca de Alexandria no Egito foi incendiada em 48 a.C por Júlio César. Fico pensando quantas obras maravilhosas foram queimadas, quantos geniais poetas tiveram suas obras tragadas pelas cinzas.
Tudo isso me traz ao nosso presente. Hoje não se queima bibliotecas, simplesmente não se forma leitores, hoje não se desafia estruturas, simplesmente ajoelha-se a elas.
Temos bibliotecas e não leitores, temos alunos que copiam da internet trabalhos, assinam a autoria e ganham nota dez dos professores.Hoje Julio César se espantaria em saber que escritores não oferecem perigo algum.
Bendito não é o que (como escreveu Castro Alves) semeia livros, bendito é o que tem o poder de corromper corações e mentes. Não importa se alguém tenha lindo ou escrito algo, o que importa é o poder da estrutura em impor seus desejos e vontades. Não por acaso os poetas de ontem e os de hoje são exilados na própria sociedade na qual vivem. De todas as linguagens a poética é a mais perigosa, é mais sedutora e também desafiadora. O poeta é um ser perigoso, deve ser combatido e desmoralizado. Digo poetas, não alinhadores de palavras.
A cultura sempre apavorou os sedentos de poder e dinheiro. No passado queimavam-se escritores, pesadores e cientistas, hoje simplesmente dificulta-se ao maximo a formação de livres pensadores que não vão escrever livros, gravar discos ou inventar remédios para o lucro frio e feroz da indústria.
O que importa é que as cinzas de Alexandria continuam a fazer terremotos culturais pelos séculos. Suas cinzas são lembradas e estão em muitos vultos da cultura, filosofia, medicina , política e religião. As cinzas de Alexandria estão comigo aqui esta noite, por outro lado os corações e mentes corrompidos e seus senhores herdarão a lata de lixo da sub - história da humanidade.
Ps. Em 2002 o governo do Egito Inaugurou a Biblioteca Alexandrina no mesmo local da antiga Biblioteca.
ediney-santana@bol.com.br
http://edineysantana.zip.net
A obra que ilustra esse artigo é de Harrison Gomez - coleção Israel/Jerusalém

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