“Flor da Memória”


Gravado ao vivo no Teatro XVIII no Pelourinho, o CD “Tempos quase modernos” de Roberto Mendes é um requiem para esse final melancólico dos anos 2000.
A expectativa com a chegada do ano 2000 foi enorme, disseram que com ele chegaria o fim do mundo ou que seriamos invadidos por marcianos ou até mesmo que Cristo voltaria e nos salvaria de todos os males. Fazer viagens por outros países seria como ir até Ana do Acarajé e comer os seus quitutes que são os melhores do mundo.
Nada disso aconteceu. Os anos 2000 se mostraram chatos, insossos e perigosos.
Para fugirmos desse lixo sombrio mergulhamos na “Flor da Mamária” e começamos a cantar “ história que não cantam mais”. Saudade de algo indefinido e que nos dói tanto e não sabemos o porquê.
A voz de Roberto Mendes é lírica, levemente romântica e por si só nos lança em uma “Saudade do Futuro”, pois se é impossível recuarmos para o ontem só nos resta buscarmos o futuro. Fuga romântica, desassossego no presente quase moderno.
E nesse fim de década “qual o assunto que mais lhe interessa?” o fim das crenças? O medo de um novo amor que se revela cadeia, mordaça, silêncio e punição? Seja lá como for o CD “Tempos quase modernos” é melancólico por refletir a poeira sobre o tempo dos nossos sonhos. Esse CD é um momento muito especial da música, poesia e sinceridade artística para um presente escombro e vazio de certezas.
Talvez a saída esteja na estrada de ferro Bragança-Belém.Bragança-Belém é titulo de uma das canções mais bonitas do CD. Esqueça a modernidade, a pós-medernidade. Esqueça, somos nada além de quase modernos, viventes na nossa Idade Media com suas inquisições e pesadelos espirituais.
No CD “Tempos quase modernos” há certo alento para a dureza poética que nos é sofrível nesses dias indefinidos.
ediney-santana@bol.com.br
http://edineysantana.zip.net
A obra que ilustra este artigo é de Dennis Esteves

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys