Pular para o conteúdo principal

Redemption Song


Quando eu era criança meu pai me deu todos os Lps de Bob Marley lançados no Brasil. Em verdade ele me dava o dinheiro, eu ia até a feira livre de Santo Amaro e comprava os discos em uma banquinha de um senhor de Feira de Santana.
Bob Marley, Edson Gomes e Elvis Presley foram os primeiros artistas que gostei , de certa forma influenciaram minha visão de mundo. Foi através das canções de Edson Gomes que tive minhas primeiras lições sobre como a desastrosa atuação do sistema político afetava negativamente a vida das pessoas, suas canções tinham algo da realidade em que eu vivia, eu era um garotinho entre os meus oito e dez anos e aquelas músicas começaram a despertar em mim algo que só mais tarde eu entenderia melhor: visão política da vida, uma visão que a escola não faria nada para ampliar, em verdade a escola tentou sufocá-la.
Elvis Presley chegou até mim por causa dos seus filmes na Sessão da Tarde da Rede Globo, naquele tempo a Sessão da Tarde era previsível: Roberto Carlos, Elvis Presley, A Fantástica Fábrica de Chocolates, Herbie se meu fusca falasse e é claro as comédias de Jerry Lewis.
Ainda nos anos de 1980 quando morava no “Buraco da Jia” rua do bairro 2 de Julho em Santo Amaro, toquei em um bloco afro mirim chamado “ Força Negra”. Lembro quando o Olodum lançou seu primeiro disco, foi uma festa, o disco não parava lá em casa.
Bob Marley, Edson Gomes, Olodum e Elvis fizeram parte da minha formação musical. Elvis por causa de sua voz perfeita, sempre gostei de cantores singulares e de vozes marcantes.
Sempre digo, depois de todos esses anos, que na música apenas dois cantores tiveram influência sobre mim, o primeiro Edson Gomes e já na minha adolescência Renato Russo e sua Legião Urbana, o primeiro me ajudou a entender como a sociedade funcionava e o outro me apresentou o lirismo poético musical de sua obra.
Uma vez quando ainda morávamos no Prédio da Leste (antiga Direc-31) discutindo com meu pai ele disse “Você parece esse povo comunista”. Quando fui para o Colégio Senador Pedro Lago passei a 5ª série inteirinha perguntando a professora de OSPB o que era comunista. A professora só me respondia que era um sonho.
Edson Gomes e Renato Russo me ensinaram muitas coisas, me tocaram profundamente. São artistas inesquecíveis e ao contrário da professora de OSPB, aprendi com eles que o dia seguinte ao sonho é a utopia, ou seja, sua realização.
Nada impede um sonho bom ou não de um dia se tornar uma utopia, um lugar possível.
Hoje sou escritor , lembro aqui de artistas importantes que encontrei e de como esses encontros foram fundamentais para mim, uma homenagem, um bom sentimento. Tudo isso só me diz o quanto mesmo nascendo pobre e com tudo contra, em algum lugar há sempre algo que pode trazer para nossas vidas o bem . Música é diversão, arte, mas também pode ser aprendizado e nos ajudar caminhar  para frente e conquistar o mundo sonhado.
O encontro com Edson Gomes e Bob Marley só foi possível por causa de um programa chamado Reggae Special apresentado por Ray Company na Rádio Itapoan FM. Mais que um programa de rádio, Ray Company apresentava uma ação social, abria espaço para bandas e artistas independentes e entre esses artistas um dia apareceu Edson Gomes, fica aqui também minha boa lembrança e gratidão daqueles momentos ouvindo aquele inesquecível programa, apresentado por um locutor diferente, especial e solidário com os artistas até então desconhecidos. Todos os sábados eu ia até ao Palácio dos Discos comprava uma fita K7 e gravava o Reggae Special inteirinho e claro esperava ansioso para ouvir gravações ou vivo do Edson, espero que um dia aquelas gravações todas apareçam como material inédito e raro do Edson Gomes.
ediney-santana@bool.com.br
http://livrosdeedineysantana.blogspot.com
http://poesiaeguerra.blogspot,com



Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Como é viver com ódio?

A internet parece ter sido transformada na vitrine do ódio. Sempre encontro bons vídeos e sites na internet com conteúdo interessante e instrutivo, mas esses sites e vídeos têm baixíssimas visualizações, por outro lado sites e vídeos com conteúdo de ódio ou violência têm milhares de acessos. Canais de políticos que não tem nada de proativo ou ideias criativas e práticas, mas explodem de ódio batem recordes de seguidores que expõe ódio, violência verbal e ameaças.   Parece ser um estado permanente de ódio, seja religioso, sexual, político ou cultural, nada escapa ao ódio. Algumas manifestações de ódio são abertas ou diretas, outras são disfarçadas de altruístas, mas todas têm como objetivo neutralizar qualquer voz dissonante dos que esses furiosos ambidestros pretendem. No mundo da violência emocional odeia-se por um único motivo: não há no mundo espaço para concepções socais diferentes das quais a ambidestra cavaleira do ódio defende.   O ódio emburrece, torna bruto corações e mentes…