Pular para o conteúdo principal

O livreiro de Cabul


Comprei no Sebo Subaé em Santo Amaro-Ba o livro da jornalista norueguesa Asne Seierstad, o livro é na verdade uma extensa reportagem sobre a vida, família e trabalho como livreiro de Sultan Khan em um país devastado por guerras: o Afeganistão.

O livro é um relato emocionante de um homem que fez de tudo para não deixar seu país na completa ignorância imposta pela milícia talibã a qual proibiu qualquer leitura que não fosse o Alcorão ou o código de ética da milícia.

Sultan Khan foi preso, ameaçado de morte, teve seus livros queimados em praça pública, mas nunca desistiu de vender livros. O talibã proibiu qualquer imagem de qualquer ser vivo, Sultan Khan então teve que esconder e apagar todas as gravuras de muitos dos seus livros para que não fossem queimados, os saldados talibãs ,em sua maioria analfabetos, só reconheciam os livros “impuros” se tivessem gravuras.

Em uma das passagens mais emocionantes do livro Asne Seierstad nos relata a invasão de um museu o qual guardava tesouros culturais da humanidade e que sem piedade foram destruídos a golpes de machados pelos soldados talibãs. Os antigos guardas do museu guardaram os pedaços das telas, dos objetos quebrados na esperança de um dia serem reconstruídos.

O livro também conta o drama das mulheres afegãs negociadas em casamentos arranjados, humilhadas e destituídas em suas humanidades e como muitas são mortas tão simplesmente por se encontrarem, por exemplo, com um homem em uma praça pública como foi o caso da jovem Saliqa, sua mãe sem piedade ordenou aos três filhos que assassinasse a irmã por “desonrar” a família.

O Livreiro de Cabul é um relato da nossa história, a história da humanidade e suas contradições, o drama de Sultan Khan e sua família não difere muito do nosso drama quando olhamos a maneira criminosa a qual nossa cultura é tratada, na Bahia a carnavalização e promiscualização de coisas lindas como o samba de roda, no Rio de Janeiro a tragédia das escolas de samba transformadas em espaços para gringo buscar diversão barata.

Em poucas cidades no Brasil há museus ou livrarias e tão pouco bibliotecas públicas aparelhadas e equipadas adequadamente. Nossos melhores compositores não conseguem espaço nas rádios ou TVs, em São Paulo, a cidade que se orgulha de ser o motor do país, há mais pet shops que livrarias, nossas editoras em sua grande maioria vivem de eternamente reeditar clássicos literários e pouco investem na renovação das letras. Por fim todos nós também temos nosso talibã que não usa metralhadora nem o fanatismo religioso, mas nos leva pouco a pouco para uma espécie de cultura da ignorância.

As redes de TV utilizam concessão pública para funcionarem, mas abusam de uma programação alienante que sem dúvida alguma tem como missão promover a ignorância e até mesmo a demência cultural na maioria da população do país, nas escolas o lixo pedagógico tomou conta das salas de aulas, nossas universidades em muitos casos são invadidas por debates desconectados da realidade e sem valor algum concreto algum. Teses estúpidas são financiadas com dinheiro público formando uma horda de especialistas, mestres e doutores estúpidos que fariam qualquer aluno da escolinha do professor Raimundo chorar de tristeza.

O que nos liga a história do livreiro de Cabul é nossa medíocre estrutura de poder político, o talibã sabe o quanto à ignorância é uma poderosa aliada para um grupo político criminoso manter-se no poder, nossa estrutura política administrativa não é muito diferente, no entanto é mais criativa na medida em que utiliza o riso vazio, a sensação de liberdade política, cultura e social para manter-se no poder.

Asne Seierstad nasceu em 1970 e não há como não ficarmos maravilhados com seu trabalho enquanto jornalista especializada em cobrir guerras, pessoas como ela são essências para entendermos nossa história contemporânea.

http://edineysantana.zip.net

ediney-satana@bol.com.br

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

Livros. Bendita seja minha mãe que aos livros me apresentou, benditos livros que não me tornaram parte do lado doce da vida, mas também não me deixaram afundar no lodo existencial.  Bendita sejam todos letrados ou iletrados, benditos sejam os olhos "cegos" do meu pai que foram os guias dos meus passos, bendita seja cada letra do alfabeto, cada virgula, ponto, travessão, exclamação, dois pontos para me levarem ao mundo sem dor. Benditos sejam os anjos das vogais, os doutos das consoantes, Bendita seja minha professora Norma e sua doce alegria que na minha adolescência me mostrou a poesia da gramática, bendito seja meu professor Anchieta Nery  que me disse:  -Você é poeta. Bendita seja a noite, a sempre noite das minhas insônias, as tristezas amigas, o espelho que não me reflete, bendita seja a fé que não tenho,  esteja comigo para que na hora da minha morte eu não sofra o que já sofri pelas horas da vida. Benditos sejam os amores,  paixões,  verdades,incertezas da vida, gran…

A onda da mediocridade

Não acredite nesta história de "onda azul ou vermelha". Frases como essas foram criadas por empresas de propagandas, elas querem convencer você a votar da mesma maneira que nos induzem a comprar tal marca de cigarros ou cervejas. Essas empresas de publicidade não estão preocupadas com sua cidade ou sua felicidade, querem que você descida pela emoção, enquanto você ataca com sua emoção quem defende a "onda azul" ou quem defende a "onda vermelha", criando um clima de justiçamento político não enxerga o óbvio: as mentiras que são contadas, inventadas para que você se sinta bem estando de um lado ou outro, para que você tenha orgasmos políticos, como se realmente fizesse parte da mudança prometida, mas você é só uma ponte para que um grupo ou outro chegar ao poder. A “onda azul" e a " onda vermelha" são motivadas não por um sincero sentimento de esperança, realização ou sentimento cidadão, são motivadas pelo desejo de poder, é só o que aliment…

Jantar e crime

Na delação: “em um jantar acertamos o valor da propina”. Quantos crimes são articulados em mesas fartas e jantares de luxo? Ou melhor, em palácios? É mórbido e tragicamente irônico que pessoas sentam-se em uma mesa cheia de comida para acertar crimes que vão levar à fome e morte tantas outras pessoas. Nos últimos dias, com o avançar da Operação Lava Jato e as delações premiadas, tomamos consciência da naturalidade a qual crimes são articulados, como pessoas sem sentimento algum, roubam e matam com se estivessem apenas trocando ideias entre amigos e parentes sentados em uma mesa. Paralelo a comilança criminosa, esses mesmos agentes do Estado tramam reformas administrativas que vão impactar a vida dessas mesmas pessoas já roubadas por eles. É preciso, sim, diminuir os gastos públicos, mas não se pode sacrificar quem já não tem quase nada. Nossa saúde e segurança pública são máquinas de triturar gente, gente pobre e tempere isso com o absurdo da reforma da previdência que iguala pela pe…