Ainda bem que o tempo também acaba


Outro dia conversando com o amigo e professor Zé Raimundo discutíamos como tudo que é virtude é jogado na descrença das utopias irrealizáveis e como tudo que é vício, inversão de valores é entendido como algo exato e imutável.
No conto “Teoria do Medalhão” de Machado de Assis, o personagem – narrador orienta o filho como se tornar um figurão, a lição é simples: não questione nem o certo e tão pouco o errado, tire proveito de tudo, viva só para si. Machado com seu humor venenoso antecipou em mais de cem anos a minha conversa com meu caro amigo Zé Raimundo, sempre vivemos entre a teoria do medalhão e os D. Quixotes em busca das suas utopias.
Criatividade, sensibilidade, amor, fraternidade? Você ta louco. Renato Russo há muito cantou que amar ao próximo é démodé, o mundo é implacável aos corações fraternos, ou se é medalhão ou se morre mártir ou esquecido em um boteco qualquer.
Na canção o Bêbado e o Equilibrista, fruto da genial parceria entre Aldir Blanc e João Bosco há uma linda metáfora que serve muito bem para ilustramos tudo isso. O Bêbado se equilibra na sua falta de apego à razão pragmática e zomba da “ordem” imposta como se fosse verdade e a vida, o bêbado faz seu espetáculo enfrente a uma platéia mórbida que vibra e torce por sua queda, esse público mórbido sabe que o bêbado é o menino que desafia o rei ao lhe dizer que estar nu, por outro lado o equilibrista é a razão, finge ser o que nunca foi, faz para si o seu próprio espetáculo e seu público é o seu próprio ego, é racional, vive uma vidinha insossa e cheia de previsibilidade, no entanto ele tem sucesso porque vive em um circo de auto-corrupção.
O bêbado é utópico, se embriaga para fugir da rotina empasta pelos equilibristas. Imaginemos um cientista (o bêbado) trancando em seu laboratório buscando a cura para Aids, câncer, gripe, mosquito da dengue, do lado de fora os céticos dizendo que essas doenças nunca terão cura (os equilibristas), mas creiam remédios para essas mesmas doenças, não para curá-las, apenas para dar ao paciente “melhor qualidade de vida” e encher os bolsos dos laboratórios farmacêuticos de grana suja e doente. Diga-me então com quem você passaria uma noite de sua vida? Com o bêbado ou com o equilibrista?
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