Pular para o conteúdo principal

Divagações depois de um eletrocardiograma


Se pudesse fotografaria o silêncio, cultivaria flores na lua, abriria meu coração aos amares impossíveis.
Seu pudesse espalharia por todas as ruas da minha cidade milhões de bolinhas coloridas de sabão, pularia dentre de uma banheira cheia de pedrinhas de gelo, diria ao meu coração “não doa tanto não”.
Estava me sentindo cansado e meu corpo não queria mais me obedecer, então pensei: se pudesse voltaria ao útero da minha jovem mãe ou escolheria depois da minha morte renascer verde campo entre os lírios da minha aldeia.
Se pudesse hoje à noite ninguém morreria de frio nas ruas, ninguém viveria pelas esquinas na indelicada indiferença dos olhares, ninguém sentiria fome.
Se pudesse encheria minha casa com amigas pessoas, dançaria na chuva com Fred Astaire, participaria de um episodio do genial Caverna do Dragão.
Se pudesse iria à idade das cavernas e brincaria com Caca e seus amigos pelo bosque dos vulcões.
Se pudesse iria a Praga e me encontraria com Ferdinand de Saussure, visitaria todos os países da América Latina.
Cantaria a mais sincera canção de amor “Me Olvidé de Vivir”.
Se eu pudesse viveria só nas páginas dos meus livros, mas a eternidade não é para os medíocres.
Se pudesse viveria só para mim, mataria todo meu romantismo, mudaria de signo, entraria para o partido fascista, ergueria um monumento a Getulio Vargas.
Sou um turbilhão de vozes, há tanta gente dentro de mim que às vezes penso ser almas penadas brincalhonas perturbando meu sono solitário.
Cansadamente ou tardiamente admito: tenho pouco de carne em mim, sou milhares de pequenas almas, delicadas e tristonhas.
Se eu pudesse deixaria para o mundo minha única esperança de unidade humana. Bem sei o quanto de nada vale meu querer, ou minha vocação para ao acaso dos corações, bem sei o quanto meu tempo é anacrônico e de nada vale no escuro abraçar o travesseiro enquanto lá fora o jogo da vida acontece no pragmatismo da estupidez humana.
Se eu pudesse abraçaria essa noite Edith Piaf e juntos cantaríamos “Non je ne regrette rien”.
Na magistral coleção de histórias catalogadas por William J. Bennett e publicadas no em “O livro das virtudes” há uma mágica e comovente história de um garotinho que com sua corda mágica viajava no tempo, seu pudesse pularia o instante da minha morte para com minha filha dançar em seus quinze anos, para ouvir sua voz apaixonada pela primeira vez.
Se eu pudesse essa noite sairia em um trenó e distribuiria cartas a todas as pessoas do mundo, iria ao Afeganistão e me encontraria com Shah Muhammad Rais, a Palestina e abraçaria Sanbel.
ediney-santana@bol.com.br
http://cartasmentirosas.blogspot.com

Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro Ney, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profund…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…