“Quando eu te vejo paro logo em teu olhar”


Morreu no dia 31 de outubro desse ano, Neguinho do Samba, um dos fundadores do Olodum e também de um gênero musical que na minha infância me fascinava, o Samba Reggae.
Quando criança era tamanha minha fascinação pelo ritmo criado por Neguinho do Samba que cheguei a tocar em dois blocos afros em Santo Amaro-Ba, um era o Força Negra, só para crianças, o outro o Ogundelê que anos mais tarde daria origem a banda de reggae Dissidência.
Quando o Olodum lançou seu primeiro disco meu pai me deu um de presente. No Buraco da Jia, rua a qual passei parte da minha infância, foi uma festa, o disco não parava lá em casa todo mundo queria emprestado. Por trás da musicalidade simples do Olodum estava à genial sensibilidade de Neguinho do Samba.
Neguinho há anos deixou o Olodum e criou a banda feminina Didá que ao exemplo do Olodum não é só um grupo musical é também um projeto social importante.
Lá no Buraco da jia era tudo pobre demais, não tínhamos ruas calçadas, esgoto, água encanada, embora a rua tivesse o nome de um buraco, era um morro e lembro que aos nove anos de idade carregava água morro acima por quase dois quilômetros para não morremos de sede.
A questão do esgoto era terrível, tínhamos que com as próprias mãos limpar a fossa, nunca deixei que minha mãe fizesse isso e evitava que meu pai o fizesse, ele já estava doente demais para se expor, então lá estava eu com sacos plásticos na mão fazendo o trabalho, quando chovia colocava sacos plásticos para proteger os pés e evitar o constrangimento de na escola ouvir piadinhas “povo da rua da lama”.
Quando ouvir o Olodum, aqueles discursos todos, algo em mim começou a despertar: a pobreza não era uma questão geográfica é e sempre foi uma questão política.
A trilha sonora dos nossos dramas estava ali nas batidas fortes e sem romantismos do Olodum, como muitos dos seus membros eu não tive infância, meu brinquedo era a lutar constante para sobreviver, minha adolescência também não foi lá grandes coisas, mas a poesia e a rebeldia do Olodum me ajudaram a entender porque “uns nascem pra sofre enquanto outros ri”.
Neguinho do Samba não ficou rico com sua música, quando passou mal foi de taxi a um posto médico da prefeitura de Salvador, recebeu o mesmo tratamento de milhares de pessoas pobres e anônimas, voltou para sua casa no Pelourinho e morreu. No seu enterro não havia figurões ou gente poderosa, havia o seu povo.
Com Neguinho do Samba começou minha educação musical, para ele meu respeito e carinho eterno.
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