Pular para o conteúdo principal

Assim na vida como na morte

O documentário “Coração Vagabundo” é um registro de uma excursão do Caetano Veloso pelo mundo. O documentário é chato, monótono e só valeu mesmo a pena tê-lo feito o seu produtor Fernando Grostein Andrade por algumas poucas boas passagens. A mais emocionante para mim é a que Caetano diz: “Antigamente eu pensava quando eu morresse queria ser cremado/.../ depois eu comecei a pensar que eu devo ir para o cemitério de Santo Amaro/.../ ficar junto com minha filha, por causa do lugar, de Santo Amaro.”.
Há muitos anos escrevi uma canção que diz: “Quando for à hora do meu ciclo fechar/ quero minhas cinzas ao lado dos meus mortos na terra sagrada descansar”No caso a terra sagrada é Mundo Novo, lugar que nasci.
Jorge Boris, Poeta aqui de Santo Amaro, me disse certa vez que quando enterramos alguém em um lugar não conseguimos mais ir embora, a terra passa ser sagrada, Jorge Boris tem dessas coisas com cemitérios e terra. Meu pai está enterrado em Santo Amaro, mas continuo querendo ser cremado, o problema é: cremar é caro, ser enterrado é relativamente barato.
Soube que no Haiti há o costume de se enterra as pessoas nos quintais das casas, achei isso comovente, Castro Alves escreveu um poema no qual dizia não querer ser enterrado em uma sepultura fria de um cemitério. Não teve jeito, foi enterrado no Campo Santo no bairro da Federação em Salvador, mas depois fizeram uma estatua sua na Praça a qual foi batizada com seu nome e colocaram o que sobrou dele lá, antes tarde que nunca.
Certa vez fui eu e minha amiga Consuelo Pinto visitarmos a sepultura do Raul Seixas no cemitério Jardim da Saudade em Salvador, fiquei impressionado pelo abandono da sepultura, não havia uma flor se quer, coisa que providenciamos, Jim Morrison sempre quis ser escritor, mas não teve tempo, mas conseguiu uma proeza, está enterrado no Père-Lachaise na França e divide o cemitério com gente como Oscar Wilde , Chopin, Honoré de Balzac, Jean de La Fontaine, Marcel Proust e Édith Piaf.
No Araguaia estão enterrados em algum lugar os corpos de muitos jovens militantes do PCdoB, assinados a mando dos Estados Unidos pelo serviçal exército golpista da época, suas famílias jamais puderam lhes enterra segundo suas crenças ou desejos.
O jornal Metrópole de Salvador traz sempre um obituário que é quase uma obra literária, já começa com o titulo “Deixaram saudade (ou não)...” e além de falar dos mortos da semana, recua no tempo e sempre diz quem foi o falecido naquela data em algum ano qualquer, traz ainda uma coluna espetacular, quer dizer para quem está vivo é óbvio, conta histórias de como era ou é os enterros em vários contos do mundo.
O sonho da ciência é claro é um dia vencer a morte. Cristo, dizem, venceu a morte de forma triunfal não ficando em lugar algum enterrado ou fragmentado em cinzas jogadas em jardim ou mar, Alexandre o Grande quando estava à beira da morte pediu a sua esposa para esconder seu corpo assim que batesse as botas e espalhasse a história que os anjos o arrebataram para o céu.
João Batista, o homem do Apocalipse, tanto fez que perdeu sua cabeça para fogosa princesa Salomé, quer dizer, teve sua cabeça exposta em uma bandeja. Lampião e sua amada Maria, dizem, não era tão bonita assim, tiveram as cabeças arrancadas e expostas durante anos no IML de Salvador.
Na importância não só das coisas da terra e do céu para os vivos, mas também para os mortos nada se compara a carta do cacique Seattle, da nação Duwamish dos Estados Unidos escrita ao presidente daquele país senhor Franklin Pierce em 1854 quando ele tentou comprar as terras indígenas:
* “Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem está bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós /.../ O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios” Emocionante; não?
Entre morrer e enterrar temos nossos rituais. Não é só bater as botas e pronto, mas de tudo isso não suporto velório, ficar ali sem eira nem beira sob os olhares dos amigos e inimigos, sem tristeza ou alegria como um boneco de cera. Devia ser assim: morreu, 16h depois o corpo evaporava direto para os braços do senhor ou para o caldeirão de enxofre do tinhoso, no meu caso preferiria vagar por aí, fazendo serestas e contando estrelas e sem pagar avião.
http://edineysantana.zip.net
ediney-santana@bol.com.br
A foto que ilustra esse artigo é do cemitério de Santo Amaro e foi tirada por Amapagu Cazumbá e está no blog http://amapagupatsycazumba.blogspot.com/
* Fragmento da carta original




Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro Ney, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profund…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…