Delongas de um “morto”

Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” Machado de Assis da vida há um personagem que é o meu sonho de consumo. O livro conta a história de Brás Cubas que depois de morto vira autor da própria biografia.
Uma vez morto Brás não tem mais com o que se preocupar, não há valores ou vícios, não precisa de mascaras, conta sua vida tão somente a partir das suas próprias e universais razões.
Brás Cubas é um felizardo, pode existir quando não mais é, pode amar, chorar, praguejar contra todos e tudo, pode até se vangloriar por nunca ter trabalhado e ao final do livro diz uma sentença aterradora “Não tive filhos, não transmitir a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.
Em sua necro-biografia são os vivos seus brinquedos os quais ele vive sórdidas aventuras, vive com eles em grau superlativo toda mesquinhez humana possível. Brás Cubas se realiza neles através de toda sua podridão de defunto autor ou nas suas contradições “autor defunto”. Brás foi feliz por ter ressuscitado a si mesmo.
O ruim de morrer além, claro, de perder a própria vida é sermos só lembrados a partir das vivências e lembranças dos vivos, mesmo assim poucos são os mortos lembrados a maioria vão ficar onde está esquecidos em baixo da terra.
Brás Cubas mesmo sendo autor da sua necro-biografia é um morto e em vida foi um completo fracasso, morto tenta se vingar, mas termina sua aventura se lamentando em um capitulo maravilhoso do livro chamado “Das negativas”.
“Não alcancei a gloria do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento, coube a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto”. O fracasso o perseguiu até depois da morte.
Brás Cubas é o meu ideal de vida enquanto sujeito de si mesmo, re-vivendo a si mesmo, se re-escrevendo sem prestar honrarias a ninguém, sem ter padrinhos ou deus de obrigações, mas não na solidão que foi sua vida e tristezas narrada por ele mesmo em sua necro-biografia.
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