Amor da tua vida

Certa vez li em algum lugar que um bom livro é aquele que guarda sempre um mistério, que não se revela por completo.
Para mim o amor que interessa e sobrevive à crise da rotina é o que também guarda seus mistérios, o amor nunca revelado por completo contínua sendo sedutor.
Sem mistérios não há espaço para fantasias, ao nos revelarmos por completo nos tornamos comuns aos olhares do ser amado.
O amor cama, mesa e banho é o amor previsível, saturado e cedo ou tarde se perder na rotina é o encanto nu, vulgarizado. O beijo terno e gravata é a ponte para a separação S/A, beijo com cotação na bolsa de valores da alegria de estarmos juntos na mendicância das emoções.
Um dia no Globo Repórter vi um casal de velhinhos e fiquei bastante emocionado por eles viverem um amor adolescente, como todo amor deveria ser. Amores adolescentes guardam algo de “o mundo pertence a nós” *, amores envelhecidos são sufocados por tantos outros mundos no qual o próprio amor é algo menor, algo não rimado com felicidade a dois.
O amor do casal de velhinhos não esfriou quando no corpo havia mais rugas que tesão, era um amor encantado com o estranho que a cada dia amanhecia ao lado, o estranho que naturalmente ia se reinventando na alegria de amar sempre e sempre a mesma pessoa.
Todo amor deveria ser adolescente, todo beijo como o primeiro e único, cada orgasmo como a energia dos mistérios que ao se revelar oferecem muitos caminhos que não precisam ser revelados para no coração do amor nossa alegria despertar.
O problema é que emoções compartilhadas envelhecem. O padre Antonio Vieira em um ácido e definitivo sermão sobre esse tema (O Tempo e o Amor) joga a culpa pelo cansaço de se estar junto de quem se ama, não no fim dos mistérios sutilmente compartilhados, mas no tempo, que segundo ele tira as novidades das coisas.
O tempo tira a novidade do amor antes vivido com tesão quando queremos do outro fazermos extensão das nossas vidas negando-lhe o direito de viver a sua, para o nosso amor egoísta o outro é importante quando conseguimos fazer com que ele esteja a cada dia mais parecido conosco, uma espécie de androide sem direito a coração próprio, quando queremos no outro um “porto seguro” sem nos preocuparmos se ele mesmo estar seguro ao nosso lado, quando exigimos um amor que não oferecemos, quando queremos fazer do outro um laboratório para realizarmos nossas experiências de doma sentimental, quando queremos extorqui do outro sua” Razão e sensibilidade”**
Desde cedo aprendemos a ter e nunca compartilhar, levarmos nossas competições diárias para o amor e cama, fazermos sexo para provar para o outro e a nós mesmos que somos bons e não para compartilharmos emoções, somos dados a fazer prisioneiros emocionais e nos rimos disso.
Sem doses de mistérios perde-se a graça de se estar junto e mesmo a cumplicidade deve ter seus limites, há na vida de cada um uma fronteira que nem mesmo um grande amor deve ousar a cruzá-la. O que desejo para mim? Todos os dias dormir e acordar com um novo amor, o mesmo amor de sempre motivado pelo essencial do amor que vai estar lá nele sempre a nos esperar.
Vinícius de Morais está certo quando nos diz que um amor deve ser eterno enquanto durar, viver intensamente nem que saiba por 24h um grande amor, nos perdermos nos seus mistérios e dizermos adeus quando pouco dele nos restar, dizermos isso com elegância de nos permitirmos amigos próximos do coração, da razão e dos “mistérios sempre há de pintar por aí”***
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* Frase de Carlos Colla
** Título do romance de Jane Austen
*** Frase de Gilberto Gil

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