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Quando penso em ti sinto saudade de mim

Recentemente li uma crônica-conto intitulada “Anotações sobre um amor urbano” do Caio Fernando Abreu, no texto ele narra de maneira subjetiva à descoberta que estava com AIDS e de como isso mudara sua perspectiva em relação ao seu cotidiano e tudo nele amado ou odiado.
Ao descobrir-se com uma doença fatal o autor passou a enxergar a vida em altorelevo, tudo ganhara importância e as cores do horror das despedidas não programadas e inevitáveis.
Todos os dias há anos cruzamos com as mesmas pessoas e de repente percebemos o quanto estão envelhecidas, vamos ao cemitério da cidade e lemos surpresos as lápides de pessoas as quais conhecíamos e nem sabíamos que haviam morrido, voltamos à antiga rua da nossa infância e quase não somos reconhecidos ou reconhecemos alguém. Tudo isso são sintomas dos nossos amores urbanos, nascidos e envelhecidos ao nosso lado e nem temos certeza se algum desses amores um dia de fato nos foi importante. Caio Fernando Abreu em seu texto estava certo.
Com nossas urgências diárias bebemos doses homéricas de ilusão e como se estivéssemos no piloto automático não deixamos margens nem para a saudade, parece que na pressa de chagar ao futuro, seja lá qual for esse futuro, não deixamos nada de relevante para trás, somos seres programados para o bandeirantismo de algo sempre por chegar e cabe a nós andar e andar, mesmo que pedaços dos nossos corpos fiquem pelo caminho, não importa, o importante e andar e andar.
Chega um dia enfim que “uma pedra no meio do caminho” * nos faz tropeçar em nós mesmos e desabamos sobre um monte de histórias, desejos e sonhos abortados na raiz da nossa delicada estupidez cultivada nos vagos corações de cobre que insistimos em buscar morada.
Depois de ler o Caio Fernando Abreu passei a madrugada a beber vinho, ouvir meu adorável Edvard Grieg, a lembrar e provocar saudades de quando meu piloto automático não era tão usado, descobrir tantos eus esquecidos por aí em tantas mascaras primitivas que sem vergonha uso para olhar o tempo de frete, acabei por me sentir um fantasma de mim mesmo.
“Até bem pouco tempo atrás poderíamos/ mudar o mundo/ que roubou nossa coragem?”. Cantava Renato Russo que no último sábado 27 se vivo estivesse faria cinquenta anos de idade. Muitas coisas roubaram essa coragem:
A repetição e institucionalização dos sonhos, pensadores caricatos com respostas e soluções para tudo, lideres sociais estereotipados a defender seus guetos bancários, a falta de referencias confiáveis. São alguns motivos para a falta de coragem em um mundo dominado por almas amofinadas, pela conveniência do parecer mais que o ser.
Corações de cobre não sentem o cheiro das flores, não se horrorizam com as próprias e alheias misérias, tanto faz se masturbar ou trepar com alguém, tudo é promiscuidade e voluntarismo, não há mais taras, há tão somente vadiagem espiritual em uma mescla de ruínas e sobejo de prazeres não mais reais.
Sentir saudades de si é de alguma maneira voltar-se as cores perdidas ou esquecidas, descobrir novamente a alegria de ter em si um parceiro adorável e não ter medo de estender a mão e sempre, sempre levar uma mordida.
Mas há os amores urbanos do Caio Fernando Abreu e grita seu desespero para se recompor e ter a quem se deseja “Ouvir Mozart para não gritar e procurar teu cheiro outra vez no mais escondido do meu corpo, acender velas, saliva tua do ontem guardada na minha boca, trocar lençóis, fazer a cama, procura a mancha da (sic) esperma tua nós lençóis”.
Saudade quente e quase desespero nos últimos cânticos literários do Caio Fernando Abreu, tentativa de fuga dos amores urbanos... Boa noite.
http://edineysantana.zip.net/
ediney-santana@bol.com.br
Para Renato Russo nos seus cinquenta anos de vida, nunca esquecido, sempre amado.
* Frase de Carlos Drummond de Andrade

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