“Aparências nada mais”

Em uma belíssima canção de Márcio Greyck ele canta: “aparências nada mais sustentaram nossas vidas”. A canção narra à vida íntima de um casal (que claro) vive de aparências. Quando em verdade frequenta o inferno de uma relação sem sentido e de autoenganos, fingem para si que estão bem, quando não suportam mais estar um ao lado do outro.
Fico pesando quantas pessoas vivem assim, intimamente arruinadas, mas expondo uma vida de causar inveja a mais feliz e realizada das criaturas.
Creio que a vida em “aparências” surge quando há uma latente vergonha de mostrar-se frágil, vencível ou entregue a uma cegueira emocional que fuzila o senso de realidade. Viver em aparências é um teatro inútil, não se pode estar por muito tempo a amordaçar um grito o qual independente de como enxergamos a nós e ao outro um dia vai explodir.
Passar uma imagem de insucesso ou agonia emocional em um mundo formatizado a celebrar apenas vencedores não importando se esses vencedores sejam aparentes ou não é por demais penoso e constrangedor para muita gente.
O mundo produzido para os vencedores de momento não vive nas essências, ele acontece na superfície, em uma espécie de balé aparentemente eterno com a mediocridade.
Esforço, dedicação, chegar em 2º lugar, dedicar-se ao máximo as causas nobres? Nada disso tem importância, vale o ponto corrido, a estratégia de marketing, os amigos da foto, as mulheres e os homens deliciosos que se leva para cama.
Vivemos na época do sucesso e das relações do vazio, olhar pela janela a flor orvalhada é coisa para débil mental.
Debruçar-se sobre o paraíso das hienas e passar a vida rindo ou pregando que a dor nos ensina “outra maneira de encarar a vida”, como em uma novelinha de Mané Carlos é o negócio nesta rotina de felicidade microbiológica.
No amor, nas artes, na política e nos etc, etc, etc as aparências vão sustentando a vida de muita gente, se revelar ao mundo não é fácil, eu sei, mas um pouquinho só de verdade no “eu te amo” ou menos verdade em “ até que a morte nos separe” já seria algo tão agradável de viver.
A vida é densa demais para juras de eterno amor a um time de futebol, ao amor do outono, ao emprego, a melhor amiga da última semana. Juras são promessas nascidas para a bancarrota. Acredito em solidariedade, carinho e afeição, o resto entrego as minhas cismas a sepultar tudo no “Bosque das Ilusões Perdidas” * em que tudo acaba onde começou, no pó.
Nascemos nus, mas logo somos vestidos e passamos o resto das nossas vidas escondendo nossas emoções e revelando poucos desejos sinceros e tudo isso é tão somente a ponta do Iceberg dessa soma tantas outras emoções que chamamos de gente.
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* Titulo do romance de Alain Fournier

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