Decadência

Peguei emprestado com meu amigo Dado Pedreira um livro do poeta Raul de Leoni, falecido em 1926 quando tinha apenas 31 de idade em Itaipava-RJ.
Luz Mediterrânea é na verdade uma coletânea com a minúscula obra do poeta, infelizmente Raul de Leoni viveu muito pouco e não sei em quais condições foram os seus curtos anos de vida, mas uma poesia dele me chamou muita atenção dentre tantas outras de extrema beleza e valor literário, é um soneto chamado “Decadência” o qual aqui transcrevo:
“Afinal, é o costume de viver/ que nos faz ir vivendo para frente/ Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente/ o hábito melancólico de ser.../
Vai-se vivendo... É o vício de viver.../ E se esse vício dá qualquer prazer à gente/ Como todo prazer vicioso é triste e doente/ Porque o Vício é a doença do Prazer.../
Vai-se vivendo... Vive-se demais,/ E um dia chega em que tudo que somos/ é apenas a saudade que do fomos.../
Vai-se vivendo... E muitas vezes nem sentimos /que somos sombras, que já não somos mais nada do que os sobreviventes de nós mesmos!”
A imagem do poema do Raul de Leoni é aterradora, coloca a todos como vegetais ambulantes, a humanidade vista aqui sem perspectiva alguma, nada além é de um fantasma de si.
“O hábito melancólico de ser”. Há algo também no poema que aponta para certa cumplicidade entre o viver plenamente e essa melancolia de viver pelo viver, algo não só no vício da rotina, mas certo prazer mórbido que vai engavetando a todos na comodidade de não ir além de si e o que se tem. Se viver não basta o que fazer para não acabarmos sombras do que um dia fomos?
Se os prazeres se tornam vícios e nos adoecem há alguma saída honrosa? Em qual momento começamos a sentir saudades do que fomos? Em algum momento parece que todos vão morrendo em uma despedida amarga, porém sutil e delicada.
Vai-se caindo na rotina tanto das alegrias quanto das tristezas e creio talvez para o poeta seja aí que perdemos o elo entre o viver para construir e o existir para ser. Acharmos-nos no vácuo do ser por ser, de ter por ter, de amar por amar, por seduzir por oferecer tão somente o calor requentado e saturado, do seduzir por prazer alguém e não por afeição e carinho.
Quando o viver torna-se um vício, apenas um hábito o que resta da própria vida a não ser sombras e perdas? Às vezes olho para minha mãe na sua rotina de quase não sair de casa, ela ainda é jovem, me preocupa o quanto para ela viver é só um viver.
Basta olharmos ao lado um colega de trabalho, na faculdade alguém a fazer uma atividade tão somente por uma nota ou diploma em detrimento do ter conhecimento, nas ruas à multidão clonada das suas próprias futilidades e logo observamos quantas pessoas embarcaram no viver pelo viver, vidas automatizadas, se alimentam e não sentem o sabor da comida, fazem sexo e não se emocionam mais com o gozo, não se alegram mais com nascimentos e nem com perdas. , vidas sem recheios, apenas vivendo pelo hábito de se estar vivo, preferem trepar pelo MSN enquanto lá fora uma porção de gente mendiga amor.
Perder o entusiasmo ou se perder no próprio entusiasmo sem realizações concretas não difere muito do vício de viver pelo viver de ser por si sombra, vida em sabor pervertido. No Brasil de hoje a poesia de Raul de Leoni bem poderia ser estandarte para um povo acostumado ao prato frio da mesmice o qual alguns ironicamente chamam de viver.
http://edineysantana.zip.net/
ediney-santana@bol.com.br

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys