No enterro

Domingo fui ao enterro de um conhecido fotógrafo e professor aqui da minha pequenina aldeia.
Da morte não se discute, ela chega e pronto; é o fim do caminho. O morto, tenho quase certeza, nem sabe que deixou de existir.
O falecido não tem como saber o quanto hoje não há rotinas, que agora para ele vale o não tempo, não há o delicioso friozinho de fim de tarde, cigarros solitários, cerveja no Bistrô do Miúdo, “bença” mãe, bate boca sem propósito no adro da Purificação.
O morto é tão somente um morto, singularmente morto, nada além disto. O resto é medo que isto seja mesmo assim: além do túmulo haja só o pó como coroamento de uma vida a qual para morte pouco importa se foi santa ou pecadora.
A morte só mata, não é um tratado sociológico, movimento cotista ou nazista a estabelecer metas de igualdades ou mesquinharias humanas.
Tenho pavor dos rituais que envolvem a morte: flores sobre o peito, caixão, rezas chatíssimas, velas, badalar de sinos, velório. Só essa palavra já deixa a morte mais feia do que sua essência gelada: V.E.L.Ó.R.I.O.
Há os discursos e lágrimas nem sempre sinceras. Parece: a emoção, amor e afeição que faltaram à vida toda ao morto afloram exatamente ali justamente quando já não lhes valem mais nada...
Para mim deveria ser assim: morreu o corpo sairia voando e desapareceria nos céus, sem cemitérios, alma e palavras de conforto as quais se o morto pudessem ouvi-las em muitos casos morreria de vergonha.
O falecido (quando vivo é claro) mendigou amor, buscou desesperadamente carinho e compreensão, mas justamente quando está mais duro que palito de fósforo tudo isto aparece na hora do velório, vomitado em sua cara com uma sinceridade de um Silvo Santos e seu “bom” coração capitalista.
Em meio ao necroteatro há as pessoas sinceras, estão ali para com dignidade se despedirem de um amigo ou parente. Aí sim, se o falecido pudesse ouvi-los ou vê-los, tenho certeza, ficaria contente em saber: “amigo na alegria, amigo na dor”.
Para além, nada além. Não posso afirmar e ninguém também pode me negar, então fico com a opção de que a sepultura é o grande podium de chagada a coisa alguma do que somos.
Em enterros prefiro o silêncio ao deixar para sempre alguém que em vida tive ou teve por mim alguma afeição.
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