A palavra, escrita e leitura

O escritor Jorge de Souza Araújo* em seu livro “Letra, leitor, leituras: reflexões” traça um roteiro no qual a palavra deságua carregada de vivencias alheias ao leitor, mas que desperta nesse leitor inúmeras emoções e por fim o convida a reflexões sobre a própria palavra, o ato de ler , suas divagações e buscas pela leitura não só de uma obra mas também de si.
Há algumas passagens memoráveis na obra de Araújo como: “Ler é evitar que a alma enfarte” “ Os que não gostam de ler/ desgostam de si e do mundo” “ O espírito lúdico despertado pelo ato leitor fecunda em nós a construção saborosa de saberes e desejos” O tempo de ler livros é qualquer tempo e não um tempo qualquer” “ O texto traduz o leitor como intérprete e aprendiz de seu estar no mundo” “Ler é também liberar o outro em nós” “Meus textos alheios mesmo os mais lunáticos, ou demiúrgicos, me auxiliam a libertar-me da asfixia”.
A prosa de Jorge de Souza Araújo é deliciosa, nos convida a sentirmos os sabores das leituras e nos entregar a sensualidade de cada palavra. Toda palavra é carregada de sensualidade a nos entregar ao prazer dos seus mistérios, ao gozo das vidas idealizadas ou sentidas na ardência concreta dos prazeres, mas também essa mesma palavra pode nos frustrar, no entanto dela não saímos impunes, algo levamos para sempre: ou a alegria do gozo em comunhão ou o despertar para o vazio que nos entregamos ao tropeçar em algum conectivo sem razão.
Ler não é ruminar conhecimentos, ler é algo como desconfiar, se permitir, se entregar sem nunca abrir mão das próprias vivencias e razões, do crer e estar-se parte do difícil conflito que é viver em parceria sem anular-se e nem anular ao outro que ao nosso lado nos provoca.
Sou um exemplo de como ser leitor pode nos levar a atitudes não covardes ou passivas pela vida, ser leitor me levou a escrever, mas também me possibilitou a condição de interprete de mim mesmo, do mundo o qual quero construir e o mundo “real” que talvez não se possa fugir.
Ler nos traz todo um legado de símbolos alheios, escrever nos faz ir além de nós, refletir sobre a palavra e escrita nossa e do mundo nos permite cortejar por alguns instantes todos os sabores reais ou fictícios do personagem o qual interpretamos por essa curtíssima passagem pela nossa santa e pecadora vida entre verbos, pronomes, etc e deliciosas reticências e suas aspas.
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ediney-santana@bol.com.br
* Jorge de Souza Araujo é professor da UESC -BA

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