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Rumo ao B612

Certa vez Bob Marley disse “vocês riem de mim por eu ser diferente e eu rio de vocês por vocês serem iguais”. Meu primeiro emprego como professor foi lecionar literatura e redação em um cursinho chamado Ipsis litteris. Lembro ao chegar à sala só havia um aluno, o Miguel, hoje meu amigo e concluinte do curso de engenharia de pesca ou marinha.
Miguel era um menino muito esperto e curioso, como só havia ele na sala, decidi então: iríamos fazer uma viagem até o B612, planeta do Pequeno Príncipe, a viagem foi prazerosa e até hoje o Miguel fala daquele dia, daquela aula. Olha... Já faz muitos anos.
Com o passar do tempo à turma foi aumentando, eram garotas e garotos bem jovens, fomos juntos pela vida e obra de inúmeros escritores.
Certo dia estava lá na sala quando chegou o pai de uma aluna dizendo que queria conhecer o professor de literatura, segundo ele as aulas de literatura estavam “pirando” sua filha, “agora ela estava cheia de viagem”.
Ele falou esse monte de bobagens para mim sem saber que eu era o professor, em momento algum desconfiou, quando me apresentei como tal, levou um susto, notei o quanto não aprovava um professor que não seguia o padrão, o estabelecido pela norma número bobo das conveniências dos tolos.
A resposta de Bob Marley aos que riram dele por achá-lo diferente é maravilhosa. Não seguir a receita, não usar os ingredientes fáceis para ser digerido com alegria pela estupidez de tantas pessoas para mim é assertiva sem margens a questionamentos.
O pai da aluna não notou o quanto sua filha estava encantada com a literatura, que o ensino leve e aparentemente descompromissado facilitava esse encantamento. A literatura para mim é a única forma de expressão artística verdadeiramente universal, nascemos para mundo com a palavra, só existimos quando temos consciência no usar a palavra como maneira de marcar nossa individualidade e coletividade.
Quando nos permitimos a padronização abrimos mão do verbo, do ser ação, nos tornamos adjetivos primitivos na sociedade a qual desenharam para nós, sociedade feita em aquarela de cores e sabores duvidosos.
Bob Marley sabia como era complicado ser diferente no universo da música POP, o cenário cultural sempre foi terrivelmente manipulado, os artistas de “sucesso” geralmente são os ícones criados pela indústria.
Em minha curta jornada no magistério, em grau infinitamente menor, senti o que Bob sentiu, mas como ele nunca perdi a oportunidade de ri das tristes figuras desse baile de mascaras iguais.
http://edineysantana.zip.net/
ediney-santana@bol.com.br

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