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Toma que a batata é tua

Errar? Você ta maluco? Quem erra demonstra duas coisas: incompetência e fragilidade. Não sou eu quem pensa assim, mas isso é o senso comum a permear e nortear relações cotidianas.
Outro dia Bill Gates durante uma palestra para estudantes disse: “faça certo da primeira vez”. Disse isso porque segundo ele a vida “real” não vai dar duas chances para que seja corrigida uma questão errada.
Bill Gates está “certo”. Somos educados através de modelos de pessoas infalíveis, super-heróis e seus fantásticos poderes. Só nos esquecem de dizer que o Super-Homem tem a Kriptonita para de vez em quando se lembrar o quanto dentro do seu peito de aço bate um coração humanamente frágil de Clark Kent.
O modelo de infalíveis criaturas imposto pela predadora mais-valia (usura) das corporações sempre teve e tem por finalidade nos transformar em robôs, modismos de nós mesmos, sanguessugas da nossa capacidade de amar e sentir. Por isso mesmo quem errar da primeira vez tem grave oportunidade de não ter outra chance para tentar acertar, um erro, um expurgo definitivo.
Há alguns anos um jovem engenheiro da poderosa IBM estava envolvido em um projeto, já havia gasto dez milhões de dólares e não conseguia terminá-lo, foi quando um dos acionistas da empresa chamou a diretoria, interpelou o porquê não demitir o “incompetente” engenheiro. Um dos diretores respondeu que não poderia fazer isso, a empresa já havia investido nas pesquisas do tal engenheiro dez milhões de dólares. Essa história é uma exceção, na maioria das vezes os chefes estão mais para Tiranossauro Rex que para estrategistas de longo prazo ou dispostos a assumir riscos.
O ruim disso tudo é que a ideia pensada à distância, sobre as teclas frias do computador por um gênio do mercado ganha praticidade em nossas rotinas. Observe em seu círculo de amigos se não há por vezes exagerada reverência aos mais bem sucedidos e certo distanciamento ao sujeito batalhador, boa praça, mas que tem um defeito: vender morangos no mercado.
Vender morangos no mercado é entendido como algo menor, gente que errou, errou e não conseguiu avançar na “escala” social. Não há princesas e nem príncipes encantados vivendo em barracos, há de se desejar castelos mesmo que sejam na areia. É assim que os vencedores de si mesmos tramam a vida, aliás, lembrei de uma deliciosa frase do John Lennon “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. E olhe que o Lennon pousava de inimigo do capital.
Não me preocupa meus erros, isso porque tenho por eles a dimensão humana de suas consequência em minha vida e nas pessoas envolvidas em minhas ações e não a dimensão da supostamente lógica imposta pelo capital, me preocupa deixar de fazer planos ou por algum motivo deixar de executá-los.
Gasto muita grana mandando livros para editores e editoras. O quase não mais jovem Ediney com sua mala cheia de palavra, canções e sonhos, vejam só, é viciado em postagens nos correios. Minha mãe diz que eu deveria gastar menos com os correios, creio que não, para mim só errei de editor, da próxima vez acerto.
http://ediney-santana.zip.net/
edineysantana@bol.com.br

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