Deixe ir

Em algum lugar na Bíblia li certa vez a história de um apóstolo a lamentar-se com Cristo sobre algumas pessoas que os abandonaram. Cristo o repreendeu dizendo “se não estão aqui é porque não são parte de nós”.
Cristo estava certo, não se deve lamentar as ausências voluntárias. Interessa quem está presente em nossas vidas por vontade própria. Conheço pessoas que preferem andar mal acompanhadas que sós. Gente que sente pavor em pensar em um fim de semana sozinho, outras que vivem o precioso tempo da vida a lamentar por quem juntou os trapos, histórias e partiu.
No fim do verão acabamos por descobrir que o ir e vir de pessoas em nossas vidas é tão intenso que nos prender em saudades exclusivas por um ex-coração amigo, amante ou colega não passa de bobagem. Oswaldo Montenegro em sua canção “A lista” nos provoca ao exercício de recuarmos dez anos em nossas lembranças e colocarmos em um papel o nome de pessoas as quais jurávamos imprescindíveis em nossas vidas. Você lembra-se de todas as pessoas imprescindíveis de sua vida?
Ninguém é imprescindível, os imprescindíveis do mundo jazem no mesmo vácuo das comuns corações esquecidos em cemitérios ou porta retratos comidos pelas traças. Não sobrevivemos a nossa condição de parte do gênero humano quanto mais termos nossas vidas imprescindíveis eternamente na vida de alguém.
Imprescindível é quem está conosco no exato momento o qual vivemos nossas alegrias, angustias, vitórias, perdas, medos e esperanças.
A ideia de fidelidade, de monogamia ou monoteísmo são signos culturais idealizados por anos de construções políticas, a sociedade é construção política não uma “dádiva” da natureza forjada na evolução biológica da espécie humana a seguir sempre a mesma lógica, ainda bem quem não é assim. Por isso mesmo estamos sempre em transição diante todas nossas posturas sociais, políticas e culturais, nada é determinismo, tudo é tesão, masturbação, gozo e defloração de novos conceitos.
Essa postura transitória coloca em xeque estruturas poderosas de poder e dominação do homem para a mulher, da mulher para o homem, do senhor com o seu servo, do servo para com seu senhor, de todos nós com os que determinaram a nossa revelia o que era sagrado ou não e por isso não questionável.
Nascemos para a grande festa das despedidas, do amor com prazo de validade, da hora marcada com a morte, com o coração sempre aberto ao grande primeiro amor a chegar bem devagarzinho e nos tomar o coração, não há verdades.
O mundo foi feito sobre o império das “mentiras” (se o mundo fosse verdades imutáveis estaríamos ainda andando de quatro), acreditamos em coisas improváveis por uma questão de sobrevivência temporária. Não adianta lamentar, não lamentemos as coisas perdidas. Eu não reclamo por quem se foi, mas faço festa a quem nos braços me diz e faz amor leve.
Ps- Escrito ao som de Francisco Aaffa.
http://edineysantana.zip.net/
ediney-santana@bol.com.br

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys