“O amor era para ela exercício heróico”

Ítalo Calvino em seu mágico romance “O Barão nas árvores” nos conta a fantástica história de Cosme Chuvasco de Rondó que ainda criança decidira viver em árvores e delas nem morto desceu.
Cosme é um personagem maravilhoso porque decidiu encarar a vida e vive-la de maneira não ortodoxa e nem um pouco previsível.
De cima das árvores Cosme inventou coisas, ajudou pessoas, amou e sofreu por amor e quando pressentiu a morte atirou-se ao mar agarrado a um balão e desapareceu para sempre nas águas.
Gosto do livro de Ítalo Calvino porque ele nele o improvável pode existir enquanto em momento algum o tédio ou a rotina de uma vida insossa encontra espaço para acontecer. Muita gente se afoga em um mar de previsibilidade e mesmo quando parecem fugir a rota em verdade apenas cumpre um papel o qual muitas das vezes interpreta com o talento de um ator de quinta categoria.
Não viver papéis pré-estabelecidos, galvanizados na mediocridade ou pela indução dos modismos fabricados sobre encomendas para padronizar e matar personalidades nos dias de hoje é tarefa para quem tem mais que sangue nas veias.
Cosme Rondó era herdeiro de um importante Barão, mas isso não lhe impediu de fazer de si o que deseja, o que ele usou para ser e viver como bem quis pode ser resumido em um apalavra rara e pouco utilizada nos dias mofentos os quais estamos vivendo: atitude!
Não que falte pessoas com atitude, nada disso, o problema é que o jogo das conveniências está em primeiro plano e muita gente se anula para conseguir os restos de um banquete para o qual não foi convidado.
Viver nas árvores, quebrar padrões e ter coragem para dar e tomar pé na bunda ou cusparada na cara, personalidades livres e sinceras estão perdendo terreno para a mediocridade de se ser o que o outro quer e não o que realmente se é.
Em “Teoria do Medalhão” maravilhoso conto de Machado de Assis, o pai ensina o filho a ser um “figurão” e o caminho é simples: mediocridade, mediocridade. O romance de Calvino é antítese do conto de Machado, em Teoria do Medalhão Machado ridiculariza a sede da sociedade pelo status, no romance de Ítalo é possível fugir dessa mediocridade toda.
Cosme Rondó passou a viver nas árvores, mas não obrigou ninguém a subir com ele... E isso é algo de bom, mas nesses dias de trovoados no qual a mediocridade está em alta busco minhas árvores em meio aos galhos podres.
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