“Uma mulher abraça um guerreiro”

Fui ao teatro Dona Canô, em Santo Amaro, assistir a peça “Uma mulher abraça um guerreiro, livre adaptação cênica do livro bíblico “Cânticos dos Cânticos” de autoria atribuída ao rei Salomão que teria vivido em Israel 950 a.C.
A peça é de autoria da atriz e bailarina Ana Maria Agazzi, que além de ter criado o espetáculo também o encena. No palco não há cenário, iluminação especial ou música, no palco há tão somente uma vela e a atriz que nos oferecer uma dramática e emocionante leitura do texto bíblico.
São poucas as falas, a interpretação do texto é realizada pela dança e pelo drama que é infligido ao corpo, podemos dizer que é o corpo o grande texto em cena.
Para assistir ao espetáculo foram convidados alunos, adolescentes, de escolas públicas e particulares. Logo no foyer do teatro comentei com minha amiga Magali que seria bom ter pessoas tão jovens assistindo um espetáculo o qual não reproduzia o já gasto repertório de comédias da dramaturgia brasileira, Magali me advertiu que as coisas não seriam tão fáceis assim.
Dito e feito, durante o espetáculo o que se viu foram risos, aplausos sem razão, o que era drama foi entendido como comédia. Desabei em tristeza e vergonha.
A ignorância dos alunos não era por serem eles jovens demais, a ignorância ali refletia o nível da educação a qual todos eram vitimas, vitimas de uma escola não formadora, mas deformadora, a escola aliada à prática sistêmica e governamental de idiotizarão em massa das pessoas.
Longe, muito longe de uma escola capaz de instrumentalizar seus alunos com a capacidade de interagir com o meio ou circunstância as quais são submetidos e nelas fazerem ponderações e interferências sem o riso constrangedor de não saber para o que ou de quem se ri.
Ao final do espetáculo fui com Magali ao camarim da atriz e a encontramos sozinha no escuro, estávamos envergonhados não pelos alunos, mas pela constatação que a educação pública ou não do país está falida.
A educação de modo geral no Brasil é baseada na valorização máxima da informação, mas se despreza quase que totalmente o conhecimento, que é a capacidade de alguém de processar de maneira ordenada suas informações, mas veio a surpresa:
“O espetáculo é de formação de platéia, é para ir ao embate mesmo, algo tenho certeza que vai ficar”. Falou a Ana Maria, disse ainda o quanto achava tudo bom, sabia das dificuldades de se apresentar um espetáculo como aquele para um público não acostumado em variações cultuais.
Achei a Ana Maria bastante corajosa e decidida a carregar uma cruz por demais pesada: enfrentar um público segmentado as comédias, aos risos fáceis do teatro brasileiro. Já fazia mais de um ano que não ia ao teatro, já não suportava mais humor chato, burro e na Bahia o teatro vai quase sem variação nesta triste encenação do mesmo.
Seja como for, a peça “Uma mulher abraça um guerreiro” é fascinante, forte e com leves toques de sensualidade e desespero, tudo temperado por um amor vibrante, amor que desafiou o divino ao se entregar ao prazer da carne, amor curtido nas delícias de dois corpos desejosos de se canibalizarem.
Se um dia você tiver oportunidade assista a Ana Maria Agazzi no palco, se permita ao comovente talento de uma atriz vibrante, solitária e corajosa, de voz forte e gestos marcantes. Sair do teatro contente por ter realmente assistido algo. O site da Ana é http://agazzianamaria.com/
ediney-santana@bol.com.br
http://edineysantana.zip.net/

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