Cambitos

Hoje acordei às 04:00h da manhã e me embreei em um bambuzal. Não, não fui fazer turismo ecológico, nem procurar o Saci Pererê, estava acompanhando os diretores do Sindicato Rural de Santo Amaro-Ba em uma assembleia junto aos cortadores e carregadores de bambus.
Desde julho trabalho como auxiliar na secretária de assalariados do Sindicato, responsável por negociar o salário dos trabalhadores (as) rurais junto a empresas ou fazendeiros.
O trabalho no bambuzal é por demais penoso e embora todos os direitos dos trabalhadores estejam assegurados na forma da lei, as condições de trabalho são horrorosas, beirando uma espécie de velada escravidão consentida pela mesma lei que os ampara.
Saímos de uma estrada asfaltada, perto da cidade de São Francisco do Conde, entramos em um caminho de chão batido que se alguém vacilar, e não é exagero, pode morrer afogado na lama, é as margens desse caminho que homens e animais trabalham das 04:00h da manhã às 17:00h praticamente sem descanso por um salário mínimo mais algumas gratificações por produção.
O chamado Brasil oficial certamente ignora o país o qual aqueles homens vivem, o Brasil oficial é o das teorias mirabolantes, das ideias sem praticidade, das inteligências medianas no comando, dos “pensadores” de si mesmos, dos que nas taras por seus escombros humanos negam a sua própria condição de gente e vive nas verminações de ser coisa.
O país daqueles homens é subordinado às corporações industriais que utilizam o bambu para fabricar papel e papelão ou como combustível para caldeiras, essas corporações não entendem de gente, entendem de lucro e os trabalhadores para eles são peças que podem ser trocadas assim que apresentarem “defeitos”.
Há alguns anos trabalhei para o mesmo sindicato rural como professor alfabetizador de cortadores de cana, os tristemente famosos “bóias- frias”. Ao chegar para o meu primeiro dia de aula tive um misto de escândalo emocional e tristeza. Escândalo porque não imaginava encontrar pessoas em condições tão desumanas intelectualmente, socialmente e tudo amarrado a um trabalho que sem vergonha alguma se mostrava escravo.
Às vezes não imaginamos o caminho torpe que um grão de açúcar ou uma folha de papel ofício faz até chegar em nossas casas e serem usados despretensiosamente. Da matéria prima extraída nas lavouras de cana ou de bambu até as usinas e fábricas há uma longa história de preconceitos, medo, analfabetismo, exploração, escravidão e tudo protagonizada inegavelmente por um sombrio personagem chamado Brasil.
* Cambitos é como são chamados os homens que transportam em seus burrinhos o bambu cortado.
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