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“Vai quebrar a cara”

“Ney como você gostaria de ganhar a vida?” Essa pergunta me foi feita por uma amiga esses dias em uma boate em Feira de Santana, respondi: gostaria de vender ideias. Ela riu e disparou: “vendedor de ideias, parece título de livro da Elsevier”. Mais adiante disse: “passe logo em concurso público, se não você vai quebrar a cara, acorde você está no Brasil aqui não se vende ideias, se fosse aos menos requentar o que já temos”
“Requentar o que já temos”. Fiquei pensando nisso boa parte da noite, não toda noite, se não estragaria a alegria de me estar ali com uma morena digna de uma canção do Gonzaguinha. Em verdade ela estava mais ou menos correta, o Brasil é dado a pensamentos requentados, a chupar o velho chiclete da mesmice, mas convenhamos há muita gente boa por aí fazendo coisas certas e criativas.
Quando vendia jornais na banca de revistas Revicoque, em Santo Amaro-Ba, me encantava ler artigos de pessoas que sabiam fazer as coisas acontecerem, como um escritor com sua máquina de escrever criava personagens para peças de teatro, como um poeta escrevia seus versos na penumbra de sua biblioteca e ambos ganhavam o mundo juntos.
Diante tudo isso digo: minha vaidade é viver da semântica criativa que trago de tantos lugares e anos meus no passar do tempo, o tempo é nada além do senhor de si mesmo a nos tratar na irreverência do gato a brincar com os ratos e antes da sua vitória definitiva sobre mim espero ter minha “vaidade” um pouquinho em tons de alegria.
Não é fácil. Sou leitor de inúmeros blogs e encontro sempre inúmeras pessoas de ideias maravilhosas e produção (mesmo sendo às vezes despretensiosa) espetacular, mas acontece que nosso Brasil, como disse Yanomi, a morena de Feira de Santana, é dado a requentar, repensar ou reavaliar as contradições da vida, isso nos exila sem o menor pudor nas nossas vontades ou aflições as quais o mundo está pouco interessado, afinal há uma BMW a ser comprada ou um velinho saindo do banco dando mole com sua super aposentadoria para um viciado em crack fazer seu carnaval de desgraças.
A Yanomi está errada quando diz que vou quebrar a cara. Fazer e viver profecias é uma maneira covarde de negar nossa maior capacidade: a de criarmos e fazermos de nós mesmos fontes inesgotáveis de vida imaginativa e sedução.
Já me conformei com o coração literário menor que sou, mas enquanto puder brincar de escrever aqui no meu blog vou escrevendo meus artigos coração menor.
Não se deve traçar nossos desejos pelas linhas tortas de um país, sonhar deve ser em primeiro plano o desejo de amor do sonhador para com o seu futuro, se vai dar certo ou não é outra história. Aprendemos desde cedo o quanto reviver é melhor que viver e sinceramente não tenho interesse algum em perpetuar em minhas atitudes esse aprendizado para o passado.
Sonhar para o bem deve ser sempre algo de real incentivo, há tanta gente sonhando por aí coisas ruins, tudo que tenho é feito dentro de calor do meu coração, no objeto solitário que faço de mim e nisso tudo não cabe nada de infelicidade coletiva.
Se não possível ganhar grana com o bom dos meus pensamentos, vou trabalhar (como sempre trabalhei) no concreto da vida, a vida sempre foi duramente concreta para mim e não há nada de tão ruim assim. Silêncio na festa, faço dos versos do poeta barraco* mantras de delicado amor a mim e a você.
Para Yanomi deixo um beijão em forma dos veros do Gonzaguinha: “Olha bem nos olhos da morena/e veja lá no fundo a luz/ daquela primavera/ (...) / passe a mão nos seus cabelos negros/diga um verso bem bonito e de novo vá embora/ Diga lá meu coração que ela está dentro em teu peito e bem guardada/ que é preciso mais que nunca prosseguir”
Ps: a foto que ilustra este artigo foi tirada em de 1988 na banca de revista Revicokue estávamos limpando-a depois de uma enchente no rio Subaé eu sou o menino de boné branco com a vassoura nas mãos, tinha na época 14 anos de idade.
* Gregório de Matos
http://edineysantana.zip.net

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Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
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Carta para daqui a 50 anos

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