Os sertões do litoral

Quando criança sentia vergonha de dizer o nome da minha cidade natal: Mundo Novo. Sentia vergonha porque no recôncavo da Bahia o sertão e sua gente eram vistos como miseráveis, sujos, retirantes analfabetos.
Não sabia o povo do litoral que mesmo se fossemos analfabetos e miseráveis ou retirantes no fundo éramos produtos de um país excludente e politicamente pervertido o qual eles também eram vítimas e não sabiam.
As suas misérias eram melhores maquiadas com os títulos de seus barões estupradores de duas culturas inteirinhas: a africana e indígena.
Lembro quando morávamos em um prédio onde vivia só gente sertaneja, ouvia frases ditas pelas pessoas que passavam em sua frente como: “é uma favela” “povo ignorante”. Como criança não sabia exatamente o significado disso, mas sabia o quanto de ódio estava ali.
Em mim a vergonha acabou quando anos mais tarde ouvi Ariano Suassuna falando mais ou menos o seguinte: o povo do litoral do nordeste sente vergonha do povo do agreste, e por isso deseja ser igual ao povo do sul, o povo do sul sente vergonha do nordeste inteiro e do Brasil que não seja o deles, por isso querem ser europeus ou norte-americanos e todos são vítimas de preconceito.
Para o restante do país o nordestino é nordestino não importando se do litoral ou não, o preconceito é o mesmo. Em São Paulo há mais de quatro milhões de nordestinos, mas o povo celebrado por lá são italianos, portugueses e japoneses. O nordestino é sempre retratado de forma caricata ou como intruso.
O sujeito cruza o continente americano todo para ir trabalhar como entregador de pizza, taxista ou descarregar caminhão em Nova York, da entrevista sorridente e diz que é feliz por poder andar com cordão de ouro pelas ruas e não ser assaltado, em Nova York somos todos nordestinos.
O brasileiro é nordestino, o Brasil é nordestino, os primeiros brasileiros nasceram aqui e se espalharam pelo país, o nordestino é uma espécie de palestino perseguido, morto e humilhado em seu próprio país.
Eu nunca sair da Bahia, em verdade só conheço as cidades da região metropolitana de Salvador, parte do recôncavo e Mundo Novo, confesso: não conheço o mundo e posso errar por confiar em informações não checadas ou experiências não vividas por mim.
Os povos latinos sempre buscaram uma unidade, o Brasil sempre ficou distante disso, temos diferenças internas marcantes que são acentuadas por toda sorte de preconceitos e se há uma unidade federativa temos uma nítida separação cultural e linguística.
Tenho certeza tudo isso em algum lugar no futuro vai levar a uma separação federativa o que será uma pena, já que nossa beleza vem da nossa diversidade a qual também só permanecerá bela se cada lugar continuar encantado consigo sem querer tornar feio o Mundo Novo de ninguém.
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ediney-santana@bol.com.br
Ps- A foto que ilustra esse artigo é de Mundo Novo-Ba

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