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Uriel A Costa

Will Durant nos conta em sua “História da Filosofia”, que em meados do século XVII um jovem judeu chamado Uriel A Costa desafiou os poderosos da sua religião ao escrever um tratado atacando a crença numa outra vida, negar a vida além túmulo lhe custou caro.
Os lideres judaicos exigirem que Uriel A Costa se retratasse, a maneira escolhida para isso foi deveras humilhante. Ele deveria deitar-se à porta da sinagoga para que todos os membros da congregação passassem pisando o seu corpo.
O espírito livre de Uriel não se submeteu a tal humilhação, ao contrário, foi para casa escreveu um texto reafirmando suas convicções e suicidou-se com um tiro em 1640.
Muitos foram aqueles que deram suas vidas por ideias e não se intimidaram com poderosos, não buscaram o caminho fácil para o sorriso da sociedade e tão pouco viveram como mortos vivos entregues as redias do próprio estômago comendo mais que o suficiente para matar a própria fome.
Uriel A Costa era muito jovem, pelo desprendimento e desapego do seu espírito se não tivesse morrido tão precocemente poderia ter nos deixado mais que um exemplo de integridade cultural e intelectual (o que já é algo de grandeza incalculável) foi realmente uma pena ter morrido tão jovem.
Baruch Spinoza nasceu em 1632 na Holanda, foi um brilhante estudante de teologia e filosofia, defendia a ideia a qual Deus tinha um corpo e que no Velho Testamento não havia nada sobre imortalidade da alma. Essa ideia foi suficiente para que Spinoza fosse excomungado em 27 de julho de 1656, o judaísmo o excomungou e a humanidade ganhou um rebelde de adorável gênio.
Uriel A Costa não era filosofo, preferiu morrer, no entanto sua rebeldia e decisão de por fim a própria vida marcou a infância do garoto Spinoza que durante toda vida viveu para sustentar sua visão de mundo e de religião.
Tanto Uriel A Costa quanto Spinoza nos deixaram um legado primoroso o qual resumo em duas sentenças: espírito livro e desapego. Viver em um tempo obscuro cujo mundo era quase que por completo idealizado e pouco do pensado (não que a existência de um deus pudesse ser ou não comprovada, comprovar isso é o sonho de muita gente que se recusa tão somente crer ou de outros que desejam provar o quanto não creem em vão) poderia ser comprovado exigia um desprendimento gigantesco e uma capacidade imaginativa invejável.
Ninguém vive a frente do seu tempo, pode-se viver atrasado, voltado para um passado sem conectivo com o presente, mas viver o seu tempo e todas suas potencialidades em meio a tanta gente atrasada não é fácil, nos dias de hoje temos muitos exemplos disso de como às vezes encontramos pessoas por aí defendendo ideias da idade média ou ainda achando que Aristóteles nos serve para explicar o mundo.
Enfrentar o atraso é necessário, firmar questão na buscar para equacionar as necessidades de hoje, buscar respostas para nossos dramas do agora e não se intimidar com o peso do arcaísmo intelectual ou político, mas que uma questão política é também de sobrevivência nossa e da nossa espécie.







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