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Queijos e guaraná, por favor!

Esses dias choveu muito aqui em Santo Amaro, quando voltava para casa depois de visitar minha filha Renata Maria, ao cruzar uma das pontes que dão acesso ao meu bairro um grupo de pessoas agitava-se na margem do rio. O motivo? Um passarinho ao tentar cruzar de uma margem para outra caiu na água, se debatia em uma comovente luta pela vida.
Fiquei divido entre a emoção e a surpresa. A emoção pelo pequeno passarinho que estava a se afogar, seu desespero para tentar se salvar e a surpresa de ver tanta gente aflita vendo tudo àquilo mesmo sem poder fazer nada.
Estou mais acostumado com a indiferença do que com a solidariedade das pessoas, ainda mais por um pobre e pequeno passarinho.
Lembrei quando criança não levava lanche para escola, Fábio, hoje servidor público em Brasília, sempre levava o seu, não raro sempre me oferecia. Ele rico, mas, como cantou Cazuza, não mesquinho, aliás, o único rico da escola não mesquinho, o restante dos coleginhas simplesmente ignorava minha presença, melhor assim, pois quando lembravam me espancavam e humilhavam. Era uma escola na época para ricos, estudara nela por causa de uma bolsa.
Não que todos os ricos fossem ou são mesquinhos ou agressivos. Mau-caratismo não tem classe social, mas era o meio no qual estava, o microcosmo da escola reproduzia na inocência da infância certa luta de classes incentivada inconscientemente ou não pela ignorância das professoras em sempre tomarem partido dos alunos não bolsistas.
Anos depois eu e Fábio fizemos concurso juntos para ABIN, ele para o setor de estatística, sempre foi bom em matemática, formara-se anos antes na UFBA em Estatística, fiz para agente, ele foi aprovado... Eu não.
Ao sairmos da prova fomos até a praia da Ondina (em Salvador), o Fábio ao comprar um lanche me ofereceu um pedaço, era o mesmo sujeito de sempre, agradável, gentil e mesmo com o passar dos anos Fábio manteve o espírito solidário.
As pessoas na margem daquele rio tentando salvar um passarinho, o meu velho amigo de escola, tanta gente de espírito livre e tantos outros espelhos de gente solidária me dão alegria.
Quando era mais jovem tinha a tola ideia de que qualquer reforma social sincera neste país só seria possível através da ação política partidária, triste engano, não era por ser jovem, muitos jovens pensavam o contrário, hoje sei que posso fazer muitas coisas boas para mim e tantas pessoas, tendo o cuidado de não querer ganhar juros em cima de quem em uma momento da vida precisou de ajuda.
Um passarinho a se afogar em um rio, um garotinho sem lanche na escola, um amigo rico e um monte de gente na torcida para que as coisas deem certo... Histórias de um país que ainda estar por se encontrar.




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