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Carlos Falck

Assim o poeta Ildásio Tavares falou sobre outro também poeta Carlos Falck (1931-1964) um dos grandes poetas desgraçadamente quase esquecido neste país no qual memória coletiva é a memória individual de alguns poucos que detém o controle da cultura e da massa falida desta mesma cultura: “praticando a auto-ironia, expressando seu dilema cotidiano de encarar uma realidade que não se afinava com seu temperamento sensível, ou de fugir desta realidade”.
Praticando essa auto-ironia, Carlos Falck, nos deixou um legado poético memorável, com total consciência do seu verso Falck chega os nossos dias sem distanciamento histórico ou anacronismo, em verdade sua poética me parece mais dada aos dias de hoje que do seu próprio tempo no qual o mundo estava mais dado à música e revoluções, ditaduras e guerras com sentido confiscador das riquezas de países como o Brasil.
Carlos Falck escreveu sonetos, versos livres, poemas filosóficos e não deixou de brincar poeticamente com o classicismo, sem, contudo ser chato ou ter excesso de erudição, mal e doença de muitos poetas como Roberval Pereyr, professor da Uefs, que embora tenha contribuições importantes para a literatura peca em excesso de imagens nos seus versos o que transforma sua própria poesia em algo secundário diante a urgência de criar imagens sobre imagens, Carlos Falck não cometeu esse erro.
Falck em vida nunca publicou um livro se quer, sua produção foi quase toda publicada no extinto Jornal da Bahia, o poeta suicida, para mim, é um dos grandes nomes da poesia em língua portuguesa.
Do livro “Ofício de Cancioneiro e outros poemas” organizado por Ildásio Tavares (Imago Editora/ Fundação Cultura do Estado da Bahia, 2002) selecionei o” Poema Esquisitamente triste”.



Estendo as mãos que tenho para o céu
e sinto-as plenamente de estrelas.
E ser sozinho
Assim
é ter um mar aprisionado de venturas
e entender de peixes e paixões.
Amei o que devia amar. Agora
a dor começa a ser compreendida.
O farol habita a solidão da praia;
meus olhos vão no vazio
mas sorririam se acontecesse
um crepúsculo qualquer.
Detesto o ter de sonhar o que não quero.
A raridade da calma
faz-me odiar o desejo e a posse.
Quero restar na solidão porque entendo
que assim será melhor .
Em vão os anjos prometem um amor maior
uma paixão que não termine em ódio,
um beijo que não seja
beijo mas muito surpreendente flor.
Minhas mão estão consteladas
de lágrimas. Estou na terra
e meu céu é a grandeza obscura de meu sofrimento.
E nenhuma musa perto,
e nenhuma mulher ardente para que brilhe
novamente o clarão da esperança.




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