Como se nunca tivesse existido

Uma vizinha minha morreu sozinha em sua casa há algumas noites, a polícia foi chamada, seu corpo jogado na carroceria da viatura como se fosse um saco de batatas, ainda estava com a roupa de trabalho, trabalhava no mercado municipal em uma pequena barraca de roupas.
Não esqueci aquela cena, o corpo jogado daquela maneira, disse a minha mãe que assim como foi com nossa vizinha um dia será conosco. O descaso com um corpo morto revela uma vida de desprestígio e exclusão social, uma vida resumida em lutas diárias pela sobrevivência.
No romance “Clara dos Anjos” de Lima Barreto, o autor narra a história de Clara e sua família nos subúrbios do Rio de Janeiro, no fim da história Clara já cansada e sem muitas expectativa em relação ao futuro desabafa a sua mãe dizendo que “ não somos nada nesta vida”
Um dia passei mal e fui internado as pressas na emergência do Hospital Geral do Estado da Bahia, HGE, às quatro horas da manhã muito doente, sentindo dores terríveis e sentado em uma cadeira no corredor do hospital tomei das mãos de um macaqueio uma maca suja de sangue e sem pensar duas vezes me deitei, consegui me recuperar da doença, alguns anos depois vi um primo querido (José, Mudo) no mesmo hospital morrer porque não havia vagas na UTI.
Minha vizinha, eu, minha mãe, meu primo e tanta gente por aí, todos nas páginas de Clara dos Anjos, todos na pena de Lima Barreto entregues a própria sorte no país dos Bruzundangas *.
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* Título de um dos livros de Lima Barreto

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