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Bullying

A palavra da moda é: bullying. Nova palavra para um antigo mal. Bullying é a agressão física ou emocional de um colega de escola para com outro, em tese só colegas se agridem, tão somente em tese.
Da 1ª à 4ª série do então primário estudei em uma escola particular, foram anos de sucessivas humilhações.
Quando meu pai chegou em casa com a novidade de que eu havia ganhado uma bolsa de estudos em uma das melhores escolas para crianças da cidade foi uma festa.
Estava feliz da vida com minha nova escolinha, tudo de bom que ela poderia me oferecer, mas o encanto e entusiasmo duraram pouquinho, por ser bolsista era tratado pela maioria dos professores (as) e colegas como um intruso, alguém ocupando o sagrado espaço da burguesia infantil.
Naquele tempo vendia doces com minha mãe e pai na Praça 14 de junho em Santo Amaro, uma professora me viu trabalhando na nossa barraquinha, foi o início do agravamento das humilhações e preconceitos contra mim.
Era como se eu representasse uma possível má influência para os demais alunos, pudesse transformar todos em trombadinhas ou viciados em drogas, afinal ter um aluno trabalhando no ponto de ônibus era um atentado contra a tradição da escola.
Cheguei ouvir, escondido atrás de uma cortina, a professora que me viu na Praça falando coisas horríveis contra mim, de como definitivamente aquela escola não era para uma criança como eu “já tão comprometida moralmente”. Não esqueci essa frase, mas só entendi seu significado muitos anos mais tarde.
Certa vez dois alunos falsificaram fichas da cantina para roubar merenda, quando a fraude foi descoberta a diretora me apontou como responsável pelo roubo , mesmo não tendo prova alguma contra mim. Descobriram os verdadeiros culpados, ouvir da diretora: “desta vez você não está envolvido”.
Um dia alguém escreveu um monte de palavrões no caderno de uma coleguinha, a professora disse que as letras eram minhas, fui humilhado na frente de todos, senti vontade de esmurra todo mundo, mas acabei mesmo foi sendo suspenso e tendo de voltar à escola com minha mãe que foi convencida pela professora de que eu era um devasso, isso me rendeu problemas em casa.
A fim de garantir uma grana extra pedi ao meu pai para comprar um carrinho de mão, assim eu poderia ir trabalhar no mercado levando compras das madames. Sou sertanejo, para os povos dos sertões a primeira letra do alfabeto é “T”, de trabalho, não importando a idade que se tem. Essa realidade felizmente está cada vez mais distante dos corações sertanejos de hoje.
Um dia passando por trás da igreja da Purificação com meu carrinho de mão avistei uma colega da escola, coloquei minha camisa sobre a cabeça na tentativa de não ser reconhecido por ela, não adiantou, me reconheceu, apontou o dedo para mim e disse: “deixe chegar na escola.”
Dito e feito no outro dia ao entrar na escola enfrentei um corredor Polonês com direito a gritos e tapas nas orelhas. Esmurrei um colega, resultado? Fiquei uma semana saindo mais tarde da escola, com os colegas nada aconteceu.
Apanhei várias vezes dos coleginhas, comecei também a ficar agressivo, nervoso e não acatar ordem de ninguém .Quanto mais rebelde ficava mais porrada tomava, humilhações e castigos recebia.
Um dia levei uma surra do Sérgio da 2ªD, ele me jogou em cima das carteiras, quando estava no auge do sofrimento pude observar a professora rindo sinicamente,tive vontade de matá-la, jogá-la no rio Subaé com uma pedra amarrada no pescoço, não fiz nada é claro, fui para casa com o olho roxo, chorei e dormir.
Na 3ª série fui reprovado, mesmo tendo boas notas, durante 3ª série foi à única vez que tirei um oito em matemática, nunca mais fui além seis e meio. Recebi a notícia da minha reprovação em uma segunda-feira, sair zonzo andando em meio às bancas de roupa do mercado.
Tive uma crise nervosa, acabei tendo diarréia, fiquei parado na rua todo sujo de fezes, mandei recado para minha mãe, ela foi me buscar, me enrolou em uma toalha, fomos para casa. Ao chegar à porta do prédio no qual morávamos (antiga Direc-31) havia um ponto de taxi e muita gente, fiquei com vergonha de passar, estava cheirando muito mal, mas minha mãe, minha heroína me deu coragem e conseguir entrar no prédio.
Anos depois descobri que bolsistas não podem perder de ano, se não perdem a bolsa, isso aconteceu comigo. Meu pai preferiu me deixar estudando na mesma escola, então apertou o orçamento e lá fiquei para minha máxima tristeza.
Meus pais eram pessoas extremamente simples, não tinham estudo formal, acreditavam que professores (as) sempre tinham razão. Então para eles eu era mesmo um capeta, um aluno rebelde, merecia alguns castigos, meus pais só queriam meu bem, eles acreditavam no sistema.
No meu primeiro dia de aula como não mais bolsista a diretora da escola, no pátio, depois da costumeira reza ao nosso anjo da guarda disparou contra mim na frente de todos: “se eu estivesse aqui na hora que seu pai veio lhe matricular você não estaria aqui agora, você não é bem vindo aqui.”
Daquele dia em diante morri dentro da escola, não falava nada além de “presente professora”, aceitava as provocações, emudeci , desisti, fui um aluno morto. O silêncio e meu caderninho “Companheiro” comprado no supermercado Colosso eram meus únicos amigos.
Um dia a diretora me parou e disse o quanto os professores (as) estavam contentes comigo. Eles estavam contentes com meu voluntário suicídio estudantil. Em verdade a vergonha que a diretora me fez naquele dia conseguiu doer mais em mim que todas as surras e castigos durante todos aqueles anos, por isso morri, simplesmente morri.
Lembro de tudo que passei naquela escola, mas alguns detalhes ressurgiram por ter encontrado recentemente meu caderninho “Companheiro”, nele entre rabisco que não conseguir entender, pude ler em minhas letras tremulas e doloridas meus anos de penação escolar.
A frase que mais aparece no caderno é: “quero morrer”. Há mais de vinte e seis anos, em plena infância o mais desejado por mim era morrer para não voltar mais à escola. Naquela época não havia o Estatuto da criança e adolescente, creio também Conselho tutelar, foi uma pena, talvez se tivesse ao menos seria “amado” em falsidade por meus professores (as) e colegas.
Quando terminei a 4ª série fiquei feliz da vida, fui para um colégio público, o Senador Pedro Lago. Tive medo de ser rebaixado da 5ª série e ter de voltar para a tal escola, mas isso não aconteceu, perdi o ano na 7ª e 8ª, não havia mais perigo.
Meus problemas agora eram outros: os calores da puberdade que não me deixavam em paz e a possibilidade de nascer pelos em minhas mãos, seria uma vergonha danada.
Fantasmas do meu passado de vez em quando aparecem por aqui reencarnados em monstros terríveis em meu coração. Contudo gosto de gente, sempre espero encontrar minha espécie por aí em alguma esquina com o coração aberto dizendo: “eu amo você”. Afinal todos merecem ser felizes, inclusive eu.
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ediney-santana@bol.com.br

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