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De Profundis

Oscar Wilde era um escritor bem sucedido e famoso na Londres no final do século XIX até que se envolveu sentimentalmente com Lord Alfred Douglas. Acusado pela família do rapaz de tê-lo seduzido Wilde passou dois anos na cadeia, dois anos no inferno.
Entre 1896 a 1897 Oscar Wilde deixou para trás a glória que vivia por ter escrito um dos mais celebres romances em língua inglesa de todos os tempos: O Retrato de Dorian Gray, publicado em 1891, para amargar o esquecimento, tortura, fome e desespero nos porões de uma cadeia.
Quando deixou a prisão Wilde já mais gozou da vida que tivera antes, por ser homossexual foi banido dos meios sociais e culturais de Londres, mas na prisão também escreveu outra obra celebre: De Profundis.
Suas lembranças do cárcere e das injustas penas a ele impostas estavam ali registradas em Profundis sem o menor retoque.
Quando ligo a TV e vejo notícias de homossexuais sendo caçados, espancados e mortos pelas ruas do país imagino o quanto a selvageria que um dia encarcerou Oscar Wilde ainda está bem viva por aqui.
Salvador, segundo o movimento Gay, é a capital nacional de crimes contra homossexuais. A capital que se destaca em movimentos pela tolerância e igualdade entre os povos é também a que mais mata e persegue pessoas que não são para os brutus de civilidade espelho, para esses brutus espelho bom é o que reflete suas almas assassinas.
Tenho muitos amigos gays e lésbicas, muitos deles já me relataram que já sofreram algum tipo de discriminação ou agressão, por outro lado alguns conhecidos meus não gays ou lésbicas já foram em algum momento preconceituosos ao me perguntarem coisas do tipo: “você confia muito em beber com essa gente”, “veado não merece confiança”, “sapatona é tudo puta”.
Gente esclarecida, gente finíssima, mas tão vazias de respeito ao próximo, desconfio de tanto ódio... Mas o melhor é ter cuidado. Ódio e intolerância sempre deram em grandes surtos de malignidade.
A Ciência também já deu sua contribuição (creio mais por ignorância que por preconceito) para alargar a homofobia, não foi pequena não essa contribuição. Até a década de 1970 o homossexualismo constava na lista da organização mundial de saúde como doença. Quantos eletros- choques? Sessões de terapias e drogas? Tudo para “curar” pessoas de um mal terrível: homossexualismo.
Algumas religiões também não ficam atrás, não por ignorância, mas por intolerância mesmo, atribuem o homossexualismo ao demônio, dizem que Cristo pode salvar essas almas entregues a luxúria, outras decidem resolver tudo na base do apedrejamento mesmo.
Quando os primeiros casos de AIDS começaram a surgir no finalzinho da década de 1970 a ciência estava convicta que:
A AIDS é uma doença de gay, é a praga gay se afaste dos gays!!! AIDS é doença de gay e de usuários de drogas injetáveis se afastem dos dois!!! A AIDS é doença de gays, viciados, e prostitutas, esse é o grupo de risco se você não estiver entre eles tudo bem!!!
 Por fim a ciência acertou: esqueça essa besteira de grupo de risco, qualquer pessoa pode se contaminar com o HIV. Evite comportamento de risco, não pessoas. Use camisinha, não compartilhe seringas.
Fico pensando o quanto os gays foram perseguidos e humilhados, acusados de terem espalhado AIDS por aí, e algo igualmente grave, quantas pessoas pegaram AIDS acreditando estarem protegidas por não fazerem parte do “grupo de risco”...
Penso em Oscar Wilde, nas profundis destes dias no qual um soldado do exército atira em um jovem por ele ser gay ou quando garotões psicopatas quebram lâmpadas no rosto das pessoas tão somente por elas serem gays como se alguém gay ou não merecesse isso. Fazem essas coisas e são protegidos por suas famílias ricas as quais não entendem que cada um escolhe a maneira de amar que mais valia a pena para si.
Ps- Texto escrito ao som de “ Gracias a la vida” de Violeta Parra, na voz de Joan Baez





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