O mal do século

No final dos seus 36 anos de vida Renato Russo reescreveu em uma das suas canções o mal do século dos poetas românticos: “Diga o que disserem o mal do século é a solidão”. Cantou isso Renato na bela canção “Esperando por mim”.
Há alguns caminhos os quais por vezes são percorridos na indigesta companhia da: solidão sentimental, ideológica, política, cultural e claro social. Nesse caminhar em cada momento se não fiéis ao bem humano que somos, vamos nos deixando pedaço por pedaço nas esquinas do acaso do que não somos, mas nos fizeram acreditar cegamente não existirmos além disso tudo.
Conviver não é viver em um mundo sem diálogo, ter com outra pessoa é antes de tudo saber dela, ouvi-la, segurar bandeiras não é impor um desejo radicalmente no coração de ninguém, nada imposto tem final feliz. Nem o bem pode ser imposto pela força.
Não estar solitário é ter algum tipo de amparo, de carinho gratuito, estar feliz na face de alguém que nos quer bem pelo bem, o amor pelo carinho de se estar presente na vida de alguém e principalmente ter consigo mesmo uma relação de solidariedade inabalável.
Há muitas sensações falsas de que se tem carinho e compreensão. A depender do personagem e cenas da vida na qual atuamos há muitas pessoas dispostas a nos aplaudir, ter por nós carinho, fingir um orgasmo bem gostoso quando em verdade tudo é carinho éter, amor preservativo.
Não é difícil sentir-se só neste lugar comum que é o Brasil, nesta grande revista vazia que transforma sorrisos em cartões de crédito. Chega-se ao ponto de se desconfiar mais das afeições do que dos gestos rudes, o que é rude quase sempre é sincero.
Mergulhar na leitura de tudo, ler o máximo que for possível. Ler no prazer do diálogo sem o risco de ficar constrangido ao descobri o quanto de falso do outro havia ou há em nós.
Ler é uma relação incestuosa entre leitor e autor no qual cada palavra serve-nos apenas se for diálogo, “cada leitor é co-autor de um texto”, tem em si todo um universo de significados e junto com o autor atribui razões a um ideia, e é aí que a solidão por alguns instantes pode desaparecer ou ao menos ganhar certa promiscuidade santificada pela urgência de vivermos para além de nós mesmos.
Gente solitária entre gente, gente trepando com gente fantasma, gente que ama personagens, gente tão solitária quanto o Tio Patinhas, gente dolorida, gente que se despede com arte, gente cansada de buscar o amor próprio e ter como parceiro o desencanto de sempre acaba se jogando do alto de um prédio, gente a cair na ilusão de ter a sim mesmo.
A natureza nos traz para este mundo , a vida nos tritura, afoga-nos em ilusórios sonhos e desejos. A vida é uma aquarela que como escreveu Vinicius de Moras “um dia descolorirá”.
Tenho evitado ser personagem, prefiro viver a crueldade de ser quem sou. Quando saio ultimamente saio sozinho, deixo que o acaso traga amigos e desconhecidos, me resolvo deitado na relva que fiz dos meus desprazeres e alegrias.
Corações automáticos desfilam pelas ruas suas vidinhas previsíveis, todos nós temos sentimentos previsíveis, mas há a poesia, abrir os braços diante tragédias inevitáveis e abraçar o bem que ainda graça nos corações sangue bom pode ser sim uma alegria em meio ao drama das solidões impostas pelas inconsequências dos dias não desenhados por nós.
A solidão das crianças que já nascem em um mundo parcialmente destruído. Um dia abrirão uma enciclopédia e lerão sobre um sentimento que seus avôs tinham e seus pais mataram: amor.
A solidão das pessoas em suas casas, nos pontos de ônibus, dos que dormem nos bancos da Praça da Piedade e são acordados por baldes de água gelada ou tiros, os que adormecem em silêncio e acordam envelhecidos diante dos seus olhos cansados.
A solidão de Deus expulso do paraíso por seus filhos, a solidão de Cristo transformado em fonte de luxaria e riqueza para tanta gente, a solidão dos pais e mães preocupados com os sues filhos sozinhos nas capitais na aventura pelo emprego e estudo.
Tem dias, acredite, é melhor mergulhar na tristeza de si mesmo, aprender com as próprias fraquezas do que abrir o coração a falsa sensação de que se é amado ou amada.
Às vezes Anjos e demônios são criaturas idênticas, apenas duelam por corações ainda imunes ao azedume humanóide, às vezes é melhor a ignorância do que uma verdade imutável, cada um tem em si seu potencial de Deus ou Lúcifer, sua alegria em ser gente ou não.
A solidão às vezes é uma boa companhia, principalmente quando acompanhada de algo por vezes adormecido em nosso coração: o amor próprio.
Ps- texto escrito ao som de “Esperando Por mim” Legião Urbana











Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys