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"A ema gemeu no tronco do jurema”

Lá vem ele do seu Maranhão, quer chegar ao Rio de Janeiro, mas antes vendeu doces pelas ruas de sua cidade, Pedreiras. Foi descendo o nordeste, na Bahia ficou um tempo bom, trabalhou como garimpeiro em Minas Gerais, no Rio foi ajudante de pedreiro e até ator de cinema foi no filme “Mão Sangrenta”, de 1954, do diretor Carlos Hugo.
Nos estudos foi até o terceiro ano primário, não por vontade própria parou de estudar, teve que sair da escola para que um coletor de impostos recém chegado a Pedreiras colocasse o filho em seu lugar. Era negro, negro não podia muito, seu avô foi escravo fujão... E vai o Brasil com suas histórias que nos quer a todo custo impedir de voar nas asas do vento leste.
Gostava de beber, com os garçons dos seus botecos preferidos compôs algumas músicas. Com o garçom Raimundo Evangelista escreveu “Minha história”, gravada por Nara Leão e com Antonio Euzébio compôs “Assim não dá”.
Muitas de suas canções denunciavam a miséria do povo nordestino, por isso mesmo foi alvo certo da censura, acabou sendo “esquecido” por gravadoras durante anos. Gravou poucos discos, mas deixou músicas memoráveis no cancioneiro popular do país. Seu nome? João do Vale
“Carcará pega, mata e come/ não vai morrer de fome/ Carcará mais coragem do que homem”. Escrita em parceria com José Cândido, Carcará, fez a glória de Maria Bethânia quando ela com apenas dezoito anos se apresentou no show Opinião, no Rio de Janeiro, Show manifesto contra a ditadura militar. Outras músicas como: “Nas asas do vento” em parceira com Luiz Vieira, que tem versos como “Deu meia- noite / lua faz o claro/eu assubo nos aro/vou brincar no vento leste/ a ciência da abeia/ da aranha e a minha muita gente desconhece/ a lua é clara/ o sol tem rastro vermelho/é o má um grande espelho/onde os dois vão se mirá/ rosa amarela/ quando murcha/perde o cheiro/o amor é bandoleiro/ pode intê/ custá dinheiro/é fulô que não tem cheiro/e todo mundo quer cheirar/ o lá rá viu”, foi imortalizada na voz de Caetano Veloso no disco Jóia.
O que dizer de versos singelos como: “Pisa na fulô/ pisa na fulô/ não maltrate o meu amô”? Cantada e recantada em todo nordeste como se fosse uma cantiga de roda, ou “A ema gemeu/ no tronco do juremá/ foi um sinal bem triste/ morena/ fiquei a imaginar/ será que/ nosso/ amor/ morena que vai se acabar?”, gravada por Gilberto Gil e maravilhosamente cristalizada na voz barroca de Zé Ramalho?
Irene Portela gravou uma das canções mais lindas de João do Vale: “Passarinho”, parceria com José Lunguinho: “Passarinho se bem/ soubesse/ quanto dói/ uma saudade/ não cantava em meu terreiro/às seis horinhas da tarde” /
Tim Maia e Cássia Eller gravaram a antológica “Coroné Antônio Bento” composição em parceria com Luiz Vanderlei. Quem nuca ouviu os versos: “Coroné Antônio Bento/ no dia do casamento / da sua filha Juliana/ ele não quis sanfoneiro/ foi pro Rio de Janeiro/ Convidou o Bené Nunes pra toca/ ô lê lê. ô lá lá”?
João do Vale morreu no dia 06 de dezembro de 1996. Para um dos estudiosos de sua obra, o jornalista José Nêumanne Pinto: “João continua fazendo suas músicas de denúncia, malícia ou esperança... E acima de tudo, continua consciente e solidário”
Ps- Texto escrito ao som da música “ Passarinho” com Irene Portela, a música é maravilhosa e a voz da Irene não merecia está esquecida.













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