No mesmo coração

Hoje beijei uma menina, uma menina linda. Temos a mesma idade e corações com manias parecidas, parece ter dentro de si todo outono da vida sem se perder em vã tristeza, isso se alguma tristeza for vã.
Mora ela há uns dois quilômetros da minha casa e há uns quinhentos metros do prédio o qual passei minha infância, crescemos na mesma rua, amigos comuns, mas nunca havíamos nos cruzado ou trocado ao menos uma olhar sem pretensão mais que um “bom dia”.
Talvez você viva em uma cidade grande e nada disso faça sentido, mas para mim é estanho saber que logo ali perto alguém crescia embalada pelas mesmas toadas de juventude e nunca nos cruzamos.
A solidão não é mais exclusividade das pessoas e suas capitais como bem cantou Belchior, a solidão ferve em qualquer canto, em qualquer presépio de cidade. Andar pelas ruas, sempre enfrente e sem motivos para olhar ao lado e dizer: “oi!”
Acho estranho quando encontro alguém que vive perto de mim e pergunta: “nunca mais mandou um e-mail, já tem MSN? Abandonou o Orkut?”
A vida cada vez mais vai ficando perto do que preconizou Aldous Huxley em seu “Admirável Mundo Novo”: artificializada. A emoção de se “ter” ou estar perto de alguém substituída pela vibração de dominar uma ferramenta de mídia ou de internet e o mais grave vidas controladas por esse sistema de emoção em bits.
Não sei se tudo isso foi à causa do nunca encontro da menina e o beijo de ontem à noite, mas, poderia ser pior, poderia ser um beijo virtual, um gozar de mentirinha. Sabe quando nos masturbamos e temos uma sensação de ressacar?
Queria mesmo, como quase todo mundo, era alguém para viver o tempo que me resta, ficar em casa, vendo meus DVDs piratas (todos patrocinados pela ACINE) isso porque só compro CDs piratas que sejam devidamente financiados pelo governo.
Tenho prestado atenção nas palavras soltas, nas verdades entrecortadas e vou ficando apavorado, tenho medo de perder a emoção de estar com alguém, de me enredar nesta terra de ninguém que é pilhagem social, emocional, política e cultural... Nesta mediocridade em ser individualista, gozar, vestir a roupas e sair.
Tudo que é humano não me é anormal, mas como em “A revolução dos bichos” de George Orwell, fico preocupado quando alguns são mais iguais que os outros, quando isso acontece é sempre um igual para o mal.
A única diversidade possível é do tempo, único deus realmente socialista que a todos celebra com inevitáveis marcações: velhice, solidão, dor e por fim morte.
O problema é que estamos cada vez mais nos estranhando em nossa própria condição humana, outro dia ouvir alguém dizer que: “o amor que sinto pelos meus cachorros demonstra o apreço que tenho pelos homens”. Quando isso acontece creio que também surge um terrível desprezo para com nossa própria raça. Se é que temos alguma.
Espero com tudo isso que esse ser mais igual que o outro não atrapalhe meu olhar de por aí encontrar outra menina linda, desta vez ter algo mais que um beijinho doce, ter uma parceira para um viver sem pós-besteiridade, um viver tão calmo quanto à música do Walter Franco: “Amor vem te busca/ em pensamento/ cheguei agora no vento/ Tudo é uma questão de manter/ a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”
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