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O poder atrai moscas

“Kelly” é uma amiga minha desde os tempos de DCE (DCEs eram importantes representações estudantis, hoje foram transformados em balcões para venda de carteirinhas de estudantes)
me ligou ontem à noite feliz da vida por ser indicada para assumir um importante cargo no Ministério da Cultura em Brasília.
Disse-lhe o quanto estava feliz por ela, mas que era indiferente a toda estrutura de poder do país, e não fazia mais parte de partido político algum.
Então “Kelly” me pediu conselhos de como deveria além das questões burro-cratas se portar no poder, estranhei o pedido, “Kelly” é advogada com especialização em direito administrativo, mas tudo bem. Disparei meus conselhos à queima roupa sem me preocupar com a grandíssima gestão pública da cultura nacional.
Disse: “Kelly” minha filha, poder costuma não atrair gente, atrai moscas, abutres e toda fauna mutante da rapinagem, no poder não se tem amigos, do sexo ao aperto de mão tudo é falso, se alguma menina lhe der mole coma, mas deixei o coração fora do quarto, porque essa pessoa não vai levar em conta se você é gente ou tem vida além da burro-cracia palaciana, é uma ponte ou escada para os projetos pessoais dela e nisso não inclui amar você.
Se algum sujeito disser que você é muito simpática, gentil, um bom coração, se sente bem quando está em sua presença. Tenha certeza: esse sujeito só quer acesso rápido para alguma verba ou emprego.
No poder por mais sinceros que sejam os sorrisos, são falsos. Não esqueça teus velhos amigos do Largo Dois de julho em Salvador, quando você não representar mais o poder só eles estarão contigo, teus colegas de trabalho vão passar, fingirão que não te conhecem e aqueles corpos deliciosos, juravam que você era gostosa terão nojo até da tua sombra.
Junte grana, não dê esmolas, não faça nada além do que não seja da tua competência, se viu errado e não é da tua responsabilidade errado deixe.
Trate as moscas como realmente são: moscas, por mais educadas, vibrantes, sorridente que sejam... Não são nada além de moscas e principalmente muito cuidado com as moscas que aparentarem pensar e sentir como você, essas são as piores.
Lembra de Augusto dos Anjos? “O homem, que, nesta terra miserável/ mora entre feras/ sente inevitável necessidade/ de também ser fera”. Tenha esses versos como um mantra sagrado e nada via sair errado contigo.
Maquiavel disse: “faça o mal de uma só vez e o bem aos poucos”, pense muito nisso. Nem toda lágrima é sincera e todo sorriso brota de algo meio amarelo, nos meus dias de hoje acredito cegamente no diabo e desconfio das boas intenções de deus, o diabo é sempre sincero em ser mal, deus nem sempre em ser bem.
Entre um conselho e outro “Kelly” impaciente me perguntou- e os projetos, tenho muitos será que vai ser difícil aprovar? Respondi - não seja tola, mais da metade das verbas da cultura ficam como sempre para o sul do país, os empresários e artistas sanguessugas que não precisam de patrocínio vão levar tudo.
Relaxe aproveite as cortesias para ir aos grandes shows no Rio e São Paulo, vão te oferecer cocaína da pura paga com dinheiro público, não caia na tentação! Tenha vergonha na cara ou então reze trezentos Pai Nossos e duzentas Ave Marias.
Quando estava no meio dos meus conselhos outro celular de “Kelly” tocou, era um empresário, queria confirmar um jantar na casa de uma mega estrela da música baiana, ela se despediu e foi para o tal jantar, como disse o poder atrai moscas raramente gente.
O último ministro da Cultura só foi ministro porque era amigo de Gilberto Gil, a atual porque é irmã de Chico Buarque, ainda bem que para ter uma conta no Google não é necessário ser parente de alguém midiaticamente importante.
Pense comigo, quantos artistas, bons administradores há nesse país que poderiam assumir o ministério, contribuir afirmativamente para questões administrativas da cultura do país? Nossa sorte é que o fazer cultura independe das relações de poder. Mas assim como para assumir cargos o sobrenome ou o dedo que indica vale muito por aqui, na hora de distribuir verbas e aprovar propostas para financiamento de projetos essas coisas são mais relevantes do que o que se está propondo.
É uma cretinice sem fim, ê país toupeira, tudo masturbação, não se sabe ao certo quando no Brasil algo é humor ou tragédia.
ediney-santana@bol.com.br
http://edineysantana.zip.net/
Ps- “Kelly” é um nome fictício que dei a minha amiga, quis preservá-la, “Kelly” é filha de um deputado federal aqui da Bahia.
Ps- Texto escrito ao som Guerra de Facão, música de Wilson Aragão (vale apena ouvir esse sujeito)

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