Coração feminino*

Ediney Santana e Consuelo Cruz -foto: Sérgio Damião
Sou um coração feminino. Adoro (estar) com e entre mulheres, sejam amigas, inimigas ou amantes da última hora, adoro o universo no qual delicadeza e aspereza se confundem.
Prefiro o ódio feminino que a insensatez (dosada quase sempre por estúpidos sentimentos) dos homens.
Tenho algumas amigas inesquecíveis e inimigas perigosíssimas, poucas mulheres amei, pouco fui amado além da cordial convivência. Mulheres sempre me quiseram cama e corpo, pouca alma.
Gostaria de encontrar Angela Rôrô em um delicado estar de canções e poesias, ser minha poesia abraçada pela voz terna da Adriana Calcanhotto, ouvir Rita Lee sussurrar em meu ouvido: “menino bonito”.
Ressuscitaria com alegria minha preta vó Erundina, pintaria com alegria feminina a mais delicada possibilidade de amor em sincera cumplicidade.
Envelhecer sozinho não vale à pena, a pena fica mais leve se de mãos dadas temos nosso coração no compasso de outro sem escravizarmos ou sermos serviçais de coração algum.
Com as garotas da minha geração aprendi a fingir felicidade e prazer quando tudo é gele e cansaço. As meninas da minha geração eram tristes gostavam do Robert James Smith e cervejas no Amaro´s Hotel.
Gosto da mulher que vive ser mulher, mulher campesina como minha mãe e tantas da minha família que não tinham mãos delicadas, mãos ásperas de buscar na terra a vida costumeira de cada dia, mulher mãe, amiga, puta, que sabe ser puta sem perder o útero na esquina das comuns camas, mulher que sabe trair, perdoar, não deixa de ser para fazer do outro um ser feliz.
Não esqueço Rita, apaixonada militante do MST, que me disse não ter tempo para homens quanto mais amores. Sua causa, amor e tesão era fazer a reforma agrária, um dia a vi invadir a prefeitura de Santo Amaro o poder tremeu diante sua paixão inconteste pelos camponeses. O poder pode pouco diante o romantismo salpicado de paixões que não aceitam contradições.
Outro dia no Bar Vermelho eu e um amigo preocupados com uma menina linda que aparentava estar triste diante a alegria que passava aos seus olhos, ouvimos dos seus lábios maravilhosamente sedutores: “não estou triste, estou preocupada porque perdi o meu piercing”.
Fiquei eu e meu caro amigo tristes, femininamente tristes, bebemos até o dia amanhecer, estava leve a aurora como um pobre piercing perdido.
Durante a Revolução de 1932 uma jovem médica ficou conhecida por organizar atendimento aos feridos em combate, seu nome? Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982). Depois da Revolução Carlota se candidatou a deputada federal e foi eleita, tornado-se a primeira mulher a ocupar um cargo federal eletivo no país.
Além de entrar para história como primeira mulher eleita, Carlota participou da elaboração da Constituinte que deu as mulheres os mesmos direitos civis dos homens. A deputada Federal Carlota iniciou assim o que no futuro seria chamado de diversidades de gêneros.
Leiam aqui um trecho de um dos seus discursos: “Perdoem-me, portanto, as minhas colegas femininas, se cheguei a desapontá-las com o meu modo de agir, apagado e tranquilo, que lhes há de ter parecido até todo improdutivo. Não me acodem remorsos neste momento, porque já me é dado contemplar , cheia de orgulho, as minhas continuadoras,embora não me arrogue direitos de líder feminista, mesmo porque sempre fui contrária a organizações partidárias exclusivamente femininas”. Bravo!!! Carlota. A tranquilidade que me rendo neste momento ofereço a você.
Mulheres sabem também tirar proveito do corpo, enganar, fustigar, trepar com deus e sonhar com o diabo, engolir um sapo e arrotar um príncipe, mulheres tem estômago de avestruz, mulheres morrem de medo do tempo.
Homens sempre procuram mulheres jovens para estupidamente tentaram rejuvenescer e sentirem-se ativos quando nem Viagra resolve mais a síndrome biológica do pau caído. Homens de pouco coração, permitam-se uma ver por outra a delícia do diálogo depois de uma trepada gostosa ou não.
Mulheres também se enganam quando pensam que pernas grossas e sexo sem pudor algum vão “prender” um homem em seu coraçãozinho mel e agrião, homens fazem sexo quase nunca amor.
Gosto de mulheres sinceras que dão quando querem, se apaixonam a primeira vista por um mendigo com o mesmo amor que teriam por um magnata do petróleo. Gosto de ter amigas, gosto de seios, não resisto a um decote bem descaradinho, gosto de mulheres que usam vestidos hippies. Quase todas as mulheres que gostaria de casar, ser amigo, amar ou odiar viveram nos anos sessenta.
Às minhas amigas, noites calmas, dias alegres, amores e alegria sincera. Gosto de vocês que não são santas nem putas, são mulheres, maravilhosamente mulheres.
ediney-santana@bol.com.br
http://edineysantana.zip.net/
PS- Texto escrito ao som de “Garota de Bauru” de João Rebouças e Cazuza
* Para minha amiga http://bipedefalante.blogspot.com/, que é uma Bípede mãe família muito legal.







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