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Livros

 Se não fossem os livros para mim seria penoso viver comigo mesmo e andar por estas ruas na constante solidão que sou. Quando leio Murilo Rubião deixo por alguns instantes este mundo perigoso e mergulho no lúdico, na minha vida como única possibilidade de si mesma.
Penso o quanto poderia ter ficado analfabeto como meus pais, penso também no tamanho do amor que meus pais sentiram ao me matricular na Escolinha São José, minha primeira escola, da minha primeira professora: a Tia Hermínia.
Meus pais, minha casa, meus livros. Minha vida é alegria dessas três coisas e que agora ganha o tempo da emoção em começar ensinar a minha filha as primeiras letras, quando vejo e sinto tudo isso tenho certeza que há sim o doce da vida.
Sem a possibilidade da leitura constante das minhas emoções, sem livros para neles buscar respostas para perguntas entre as razões e sensibilidades o que de mim seria? Claro que há inúmeras maneiras de ler e viver este mundo, a palavra escrita é só mais uma dessas maneiras, mas é a que me encanta e me diz: você está vivo!
A palavra é a minha alegria que também é o meu desassossego, a única coisa que tenho, nem bela ou feia, triste ou alegre é simplesmente o que tenho, minha palavra é uma moeda barata que faz a alegria dos meus passos e o amor pelo tempo de estar vivo.
Gostaria de ir para a Europa, andar pela América Latina, conhecer de perto outros lugares e suas palavras, ir a Praga, dormir noites inteiras no Crato, encontrar minhas raízes no canto dos poetas populares nos sertões que guardo em minhas saudades, antes de morrer desejo cruzar com essa ancestralidade que sinto está aqui perto.
Dentro deste meu peito Gabriel García Márquez renasce sempre gente novainha, gente que tem o coração nas mãos e alegria nos olhos por saber livros e gente.
Deixo para traz velhas marcas e certezas, mergulho na aventura de viver permanentemente quem sou e o que surge a cada instante ao cruzar textos escritos sobre minha pele curtida ao sol.
Vou entre o real e a fantasia, como um dia eternamente cinza nas canções dos Beatles e em cada esquina da minha Santo Amaro amanheço mil personagens.
Sempre quis me pintar de palhaço só para ser fotografado, mas nunca encontrei ninguém para me maquiar, uma foto apenas como um palhaçinho desses de penteadeira, um Patati ou Patata totalmente alma sem medo do escuro entregue ao colo e carinho dos pais.
Há uma canção linda de Carlinhos Brown gravada por Marisa Monte que às vezes pela manhã canto bem alto: “Quem viu barquinho de papel ancorado no mistério/ quem tem Deus como império/ não mundo não está sozinho/ os livros não são sinceros” *.
Livros não têm verdades ou mentiras, livros nos oferecem palavras, cada um faz delas o que quer. Como Aristóteles escreveu: “com as mesmas palavras que se faz uma comédia se faz um drama”.
“Quem tem Deus como império no mundo não está sozinho”. Meu coração papel ofício A4 anda tão sozinho, delicadamente sozinho como uma nuvem áspera no apavorar cristão coração na hora que tudo é raio, relâmpago e trovão.
Página 55 do livro de todas as perdições: o senhor está absolvido de todos os crimes a partir deste instante serás feliz como cactos plantados em tudo o quanto lhe parecer belo.
Se não fossem os livros todas as tardes morreriam comigo, todos os anjos andariam descalços como inimigos essenciais, se não fosse a palavra tudo acabaria em profundo silêncio, tudo sempre diz alguma coisa mesmo quando a impressora engasga ou falta luz e você não salva o teu coração do branco que nasce a cada apagão, a cada nova ilusão nos dias de leitura e tédio inventado.
Ps- Texto escrito ao som de Magamalabares de Carlinhos Brown na voz de Marisa Monte



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