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Tal felicidade


Individualmente você e eu podemos até sermos ou somos felizes, mas na coletividade ninguém é feliz neste país que a meia noite sempre vira abóbora.
O Brasil é o fruto coletivo do individualismo, somos um povo sem paciência para pensar no outro, a regra básica para si viver por aqui está nas palavras do coronel Tamarindo no seu brado de retirada da Guerra de Canudos, brado registrado por Euclides da Cunha em “Os sertões”: “É tempo de murici cada um cuide de si”.
Vivemos em eterno estado de “murici” e neste tempo eterno cuida cada um de si como se a coletividade arruinada não tivesse absolutamente nada haver conosco.
Felicidade coletiva? Presos em engarrafamentos na solidão do ar condicionado ou no inferno de um coletivo super lotado? Felicidade coletiva? Quando estamos na busca desesperada por atendimento médico em postos de saúde ou hospitais públicos que estão mais para criadouros de bactérias?
Felicidade coletiva quando os índices de mulheres casadas contaminadas pelo HIV aumentam assustadoramente por conta da irresponsabilidade de seus maridos que se infectam e infectam suas companheiras?
Felicidade coletiva? Quando vamos a um estádio de futebol e somos vitimados por quadrilhas organizadas disfarçadas de torcidas?
Felicidade coletiva? Quando estamos presenciando o desaparecimento das nossas florestas e extinção das inúmeras espécies de animais aos olhos das autoridades “corruptamente” competentes?
Felicidade coletiva? Quando ONGs criminosas se instalam na Amazônia e livremente fazem biopirataria? Ou levam religiões espúrias na tentativa cretina de catequizar as comunidades indígenas, tentam destruir com a cultura e religião dos índios? Querendo salvar suas almas e ficar com suas riquezas e terras?
Felicidade coletiva? Depois de anos de luta pelos direitos civis das mulheres muitas ainda são subjugadas? Escravizadas em bordeis? Espancadas e quando vão a delegacias são vitimas do descaso de policiais no mínimo mastodontes machistas?
Felicidade coletiva quando Na contramão da afirmação feminina muitas mulheres ainda usam o corpo para conseguir um emprego, seduzir o chefe? Jogando na lata do lixo anos de lutas e reivindicações de respeito social?
Felicidade coletiva? Quando assistimos impotentes nossos amigos homossexuais serem mortos e agradecidos nas ruas por monstrengos gerados em famílias sem dignidade e falidas para o respeito de si mesmas quanto mais para a convivência pacifica com coletividade? Avessas ao amor próprio por isso mesmo desprovida de respeito pela diversidade?
Felicidade coletiva? Quando o governo do Brasil abóbora vai cortar do orçamento este ano três trilhões de reais dos investimentos para educação, cultura, ciência e tecnologia? Quando os cortes serão maiores no nordeste - avestruz, região no qual inversamente será investido mais um bilhão de reais no bolsa família?
Felicidade coletiva quando um povo inteirinho aplaude um monumento novo na praça central da cidade e não dá à mínima se políticos, grupos de extermínios, polícias corruptos e traficantes se unem para governarem o Brasil real?
Da janela do seu apartamento, da minha casinha no Bairro do Sacramento, podemos ver o Brasil com seus monstros, por enquanto estamos em paz, afinal o monstro está lá fora, devora o vizinho, o porteiro do teu prédio, um índio perdido lá na Amazônia.
Não é nossa amiga que todos os dias está sendo estuprada e morta, nada disso. Somos muitos felizes com o nosso singular bem estar, o Brasil abóbora é o do vizinho, o nosso é maravilhoso singularmente maravilhoso.
Em tempo, o Coronel Tamarindo ao dizer sua famosa frase: “É tempo de murici cada um cuide de si”, caiu cravejado de balas, seu corpo foi colocado em uma estaca na beira de uma estrada perto da cidade de Canudos-Ba.
Bem, o Brasil do Coronel Tamarindo era o Brasil abóbora, não é o nosso caso, não é o nosso maravilhoso e singular país.
http://edineysantana.zip.net/
ediney-santana@bol.com.br
Ps- texto escrito ao som de “ Parque Industrial” de Tom Zé, com Mutantes, Gil, Gal e Caetano.



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