*Adoráveis personagens reais

Em sua cidade certamente há personagens maravilhosos, personagens reais que bem poderiam ter saltado de um livro escrito por Miguel de Cervantes, personagens os quais têm os corações quase intocáveis pela maldade.
Na minha cidade entre tantas figuras memoráveis há o adorável “Cascatinha”. Sempre simpático... Lá vai ele pelas ruas com seus passos rápidos em um leve balançar do seu corpo franzino. Suas conversas giram sempre em torno de futebol, locutor em uma rádio FM, todos os dias acorda a cidade com suas notícias futebolística.
Além de uma figura simpaticíssima “Cascatinha” é filho do grande historiador Pedro Tomaz Pedreira que dedicou sua vida a pesquisar sobre a história de Santo Amaro e outras da cidade do Recôncavo da Bahia, seus memoráveis trabalhos como historiador foram publicados pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e já merecem uma segunda edição.
Toda cidade tem seus personagens simples e simpáticos que acabam virando folclóricos, ou seja, entrando para história como entidade cultural no imaginário do povo, personagens que se olhados de longe causam estranheza, mas quando olhamos bem de perto encontramos seres humanos maravilhosos, desapegados, não buscam poder ou glória, riqueza ou visibilidade. Esses personagens simplesmente existem, constroem a si mesmos em particularíssimos mundos e não sabemos ao certo se são tristes ao alegres.
Lembro na minha infância conheci o velho Perna de Pau, um homem negro de uma perna só que gostava, digamos, de falar “filosoficamente” sobre a própria morte, Perna de Pau fez linha direta anos depois quando fui trabalhar em São Sebastião com outro homem negro de uma perna só que todos os dias pegava a mesma van que eu, ao contrário de Velho Perna de Pau, esse gostava de falar sacanagens.
Em Mundo Novo conheci Licuri, um sujeito baixinho, hoje perto dos seus oitenta anos de idade, bebia e bebe como um louco. Eventual coveiro no cemitério da Barra (distrito de Mundo Novo) e brigão irrecuperável um dia deram uma “foiçada” em sua cabeça e lhe tiraram um pedaço do crânio.
Confirmando a história que coveiro demora a morrer, se não fosse pelo pedaço da cabeça arrancada Licuri chegaria aos seus oitenta anos inteiro. Dizem que até hoje Licuri guarda o pedaço da cabeça arrancada em uma lata.
Todos esses personagens têm algo em comum, em maior ou menor grau são seres quase inocentes, vivem como se fossem D. Quixotes em um mundo no qual os moinhos de vento são realmente gigantes toscos e maldosos.
Quais são os personagens inesquecíveis da tua cidade?
Texto escrito ao som da voz de Ana Alcaide.
* Na foto “Cascatinha”





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