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Não há namorados no jardim

Foto: Ediney Santana
Quando criança meu pai me levava a Praça da Purificação (Santo Amaro-Ba) ou Jardim como ele dizia. Era comum encontrarmos casais de namorados sentados nos bancos da Praça ou quase grudados nos postes de iluminação trocando carícias que aguçavam a imaginação no início da minha puberdade nos anos de 1980.
Hoje quase não vejo mais namorados na Praça, mãos dadas é peça arqueológica, demonstração pública de carinho é mais que fato raro e namorar me parece um pouco fora de moda.
Namorar é dar tempo para o amor chegar, ter com o outro cumplicidade e se permitir ao dialogo, abrir o coração na expectativa de estar com alguém que pode virar nossas vidas pelo avesso sem nos machucar, nos revelar na excitação da cumplicidade outros caminhos que quando percorridos juntos tornam tudo mais leve.
Namorar é um lento revelar-se e nada é mais fora de moda que isso. Vivemos no tempo o qual a máxima intimidade é uma rapidinha em um motel em roteiro previsível. Para mim o maior contato íntimo entre duas pessoas não é o sexo, o bater de coxas como escreveu Gregório de Mattos, para mim a maior contato íntimo é termos nossas vidas em cumplicidade com de outro alguém.
Gosto de motéis, do ar condicionado, das luzes, dos filmes de putaria sem limites e do banho quente entre linguadas. Mas tudo isso só vale a pena quando estou com uma pessoa que além de gemer e sussurrar sabe ser gente de palavra, alegria e tesão que não acaba em cinco minutos de mentiras mutuas.
Quem disse que é só a mulher quem sabe fingir prazer? Vá acreditando nisso, o mesmo asco que uma mulher sente o homem sente também quando depois do gozo do outro deseja-se apenas vestir a roupa e desaparecer.
É tudo para ontem, estamos divorciados em muitos casos com a paciência de sermos para além de nossa vontade, a ansiedade é inimiga terrível do companheirismo, só namora quem se permite ser companheiro.
Julio Braga foi meu professor de Cultura Brasileira na UFES, um dia ele me disse que viver junto, ter alguém como companheiro é comer sal juntos. Quem nos dias de hoje vai comer sal?
Enfrentar as diversidades, as agonias de uma vida a dois?
Não sou trágico, sou esperançoso na “humanidade”, mas só por hoje fico com o Jardim vazio e a Purificação triste... É claro que não sou de ferro... Carne também sente...
ediney-santana@bol.com.br
http://edineysantana.zip.net/
Ps- Escrito ao som de “Pingos de Amor” de Paulo Diniz e “ Nostalgia in Times Square” de e com Charles Mingus





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