O beijo do capitalismo


Quase todas nossas predileções (roupas, livros, discos, etc...) são por coisas “abençoadas” pelo capitalismo cultural. Assim vale além do que se realmente é quem o capitalismo consagrou com a fórmula talento (ou não) + fama= lucro.
Os “maiores” artistas frequentam a lista dos bestsellers, o lucro que essas pessoas dão ao sistema aumenta a real importância que eles têm.
Claro, há pessoas com talento consistente que também fazem parte do esquema, esses são sugados até os ossos e em troca são eternizados pelo sistema como “gênios”, “ ícones de uma geração”.
Caetano Veloso nasceu aqui em Santo Amaro, é indiscutivelmente um sujeito de talento, mas fico pensando se em um determinado momento ele não tivesse sido beijado pela indústria cultural como estaria hoje?
Resposta: fazendo barzinho em um boteco qualquer, lecionando filosofia no Teodoro Sampaio ou na UFBA e se tivesse as mesma ideias de hoje sobre educação, religião, política e sexo em Santo Amaro estaria fodido.
A indústria do entretenimento mudou muito desde que Caetano Veloso cantou pela primeira vez na televisão “Alegria Alegria”, hoje não é necessário consistência alguma para ser chamado de “ícone de uma geração”, a indústria aposta em uma mina de ouro: as celebridades instantâneas convenientemente descartáveis,algo entre um Alain Delon ou Marilyn Monroe piorados.
Fato é: na sua rua pode viver um Guimarães Rosa ou um Jorge Amado, mas se eles nunca forem tocados pelo capitalismo cultural poucas serãoas chances de serem lidos.
Sempre comprei livros em editoras alternativas e agora escuto muitos artistas em sites de música na internet,por vezes quando falo de artistas maravilhosos que encontro em ambientes virtuais obscuros ou sebos com algumas pessoas a reação quase semprenão é entusiasmada.
Você acredita ser normal há mais de trinta anos Caetano, Gil e Chico seja a santíssima trindade da música popular brasileira? Ou que só Jorge Amado, enquanto escritor, foi o único a decifrar o jeito de ser do baiano? Que sem Machado de Assis não existiria literatura brasileira?
Todos esses artistas são relevantes, abençoados pelo capitalismo cultural, mas relevantes, no entanto não são os únicos,entreeles há um imenso vazio o qual poderia ter sido preenchido por tantos outros grandes talentos desaparecidos pelo caminho.
Há pessoas que apareceram, deram lucro ao capitalismo cultural, mas por algum motivo foram colocados como inferiores, artistas de “segunda classe” e aí talvez esteja escondido inúmeras coisas: preconceitos, grau de comprometimento político, parceira instável com os ideais do sistema...
O poeta Iidásio Tavares em seu poema “Madrigal do século XX” escreve: “Século dos gênios inchados para aparecerem/grandes como superproduções cinematográfica americanas; gênios / dos escândalos sensacionalistas/ e do “marketing” cuidadosamente projetadose / diagramados na prancheta para serem rotulados e/ engarfados pela assessoria de imprensa/.
Não sinto vergonha alguma em levar para sala de aula muitos textos de blogs ou músicas do myspece, somos muitos, somos diversos... Ao menos em minha sala de aula a indústria cultural capitalista só entra quando tem “razão”, trilhas de novelinhas das novelas das oitos não canta nada em meus ouvidos... Adoro Bule Bule* cantador aqui dos sertões e recôncavo dos meus dias.
Ps- texto escrito ao som de “Madrigal do século XX, com Iidásio Tavares. CD As flores do caos, Iidásio Tavares, série: Poesia e voz vol.02, Fundação Gregório de Mattos, prefeitura municipal de Salvador-2008.
* O camarada da foto é Bule Bule cantador e repentista aqui da Bahia, cabra muito bom de samba e verso.

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