O silêncio

Para quem vive em uma grande cidade nada tão raro quanto o silêncio. Certa vez, como muitos jovens do interior, fui tentar a sorte em Salvador. Morei em um pensionato no Corredor da Vitória, uma das ruas mais elegantes e simpáticas da velha capital.
Depois de um mês em Salvador fui até Santo Amaro visitar minha mãe, quando cheguei sentir pela primeira vez o silêncio da pequenina cidade e suas ruas a guardarem mais de 400 anos de história. Tudo parecia demasiadamente quieto e lento, uma sonolência histórica tomava conta de cada rua, becos e cumprimentos invariáveis como: Oi Ney, tá sumido cara?
O silêncio pode ser um primoroso aliado ou um tenebroso companheiro ao nos impor um cruel anonimato emocional ou social, pode nos trazer imensa alegria ao nos ajudar a refletir sobre nossas ações e o mundo o qual nos fazemos parte, mas também pode nos dizer o tamanho exato do que somos sem exagero em dor ou alegria.
Durante muito tempo escrevi canções, são muitas, poucas foram ouvidas, pouquíssimas foram escutadas. Música sugere encontro imediato, escrever por outro lado tem algo de calmaria, o texto escrito acontece lentamente, a literatura é uma maravilhosa parceira do silêncio tanto na sua produção quando em sua leitura.
Quando comecei a escrever nos jornais de Santo Amaro, em especial o Ataque e O Trombone parti do silêncio para algo que sempre quis: encontrar-me com o mundo desejoso de provocações, o mundo no qual poderia não eu, mas algo de mim entrar em harmonia ou conflito com o mundo para além das minhas sensações. Quem escreve escreve para ser lido mesmo que seja um diário particularíssimo.
O silêncio pode ser sim um conforto, mas só quando voluntário e não imposto. Escutar do coração a voz a nos revelar ao mundo o qual somos e principalmente podemos ser, talvez seja essa a melhor lição, venho aprendendo com o meu silêncio encontrado pela primeira vez quando deixei o pensionato no Corredor da Vitória e voltei para o meu canto na cidade cheia de vozes antigas vindas das senzalas e, sem trocadilhos, da casa grande.
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Ps-Texto escrito ao som da banda Cocceau Twins













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