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Festa anual dos corações solidários

Estou tão contente, Adriana ligou, chegou bem em Londres, assim que desembarcou no aeroporto comprou um postal e mandou para mim. Foi fazer doutorado em artes e cinema, fico feliz no coração feliz dos meus amigos.
Choveu um pouquinho aqui em casa, na praça faz sol, estou tão preguiçoso, meu amor riu do meu olhar puro sono da tarde.
O que espero do futuro? Demore a chegar porque meu dia é tão bonito... No jardim não há mais monstros, comprei uma nova camisa toda em rosa e verde chá, minha mãe é tão bonita e sinto saudade do meu pai.
O Pedro resolveu assumir que está de AIDS, achei ele muito corajoso, estou com ele na alegria e na dor de sermos amigos, amigo na alegria, amigo na dor.
Voltei a trabalhar, estou contente, novo emprego, novas possibilidades, não há moscas aqui por perto, tudo tão verdade e paz nestes instantes antes do por do sol.
Colhi erva- cidreira no quintal da nossa casa, meu irmão me deu um livro do Leonardo Boff de presente, estou terminando meu romance, o ano que vem vou publicá-lo bem longe de Santo Amaro.
Gosto das verdades que não se impõe, das rosas e orquídeas, fui a loja de R$ 1,99 comprei incenso de sândalo, a Paulinha passou por aqui e me deixou um beijo, ontem dormir tarde, no Bistrô do Miúdo há um licor bom.
Tenho tanta compaixão pelas meninas a prostituírem no centro da cidade para comprar cocaína, fica tudo sem razão, indiferentes vão-se os viventes das sempre trágicas horas.
Tenho dois corações: um que é só amor outro só razão vidraça, os dois pulam comigo na grama quente do nosso ninho.
Sou criatura estranha, dessas que querem a paz no mundo, o bem de todos e morrem de solidão no dia dos namorados.
Tudo me foi sempre coração bandeja para festa de alguém. Ouço a Célia Porto no volume mínimo, ela é só minha.
Achei em meu quintal um luar e grilinhos cantadores, foi tudo tão bonito quanto renascer da mesma mãe na alegria de no espaço nunca do amor nos perder.
Ser canibal das mínimas coisas, quem em nós é pura paixão, lágrima seca, dor leve? Ascende teu cigarro longe de mim, me pega nos braços, me faz carinho no dedão do pé, foge, como se todo terror do mundo fosse essa cidade e seus corações de plástico.
Nada que fui tem importância, quero esses teus olhos no meu corpo, desvendando meus pecados, no encanto da luz.
Minha mãe fez pipoca, faltou luz na rua, há trovões e relâmpagos, lembrei quando criança, um dia no prédio da Leste ou terá sido na Barra? Minha vó Erundina correu para debaixo dos lençóis, ficou sentada na cama, estava com medo dos trovões e relâmpagos.
Há um abrigo para todos os corações tristes, lá ninguém é feio ou derrotado, todos estão convidados para a grande festa anual dos corações solidários.
Esqueça o que não for prazer, sinta meu bem querer por ti, minha doce esperança de sermos paz e alegria.
Meu corpo tem teu cheiro, minha língua guarda o segredo do teu sexo, nos sabemos amores e espinhos na hora certa.
Amemos, mas cada um com seu coração, nada de sermos dois em um. E.E Cummings está certíssimo quando diz: “um não é metade de dois. Os dois é que são metade de um”.
ediney-santana@bol.com.br
http://edineysantana.zip.net/
Texto escrito ao som da maravilhosa trilha sonora do filme “O Doce veneno do escorpião Bruna Sufistinha”







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