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Insônia


Padeço há muitos anos de insônia. Geralmente passo os dias sonolentos e a noite durmo às 3:00h e religiosamente acordo às 6:00h.
Insônia é um tempo de vida sem propósito e um estar vivo sem razão para isso. Gosto da noite, sobretudo da promiscuidade da noite, mas a noite branca e insone é pior que Campari falsificado no Bar Vermelho.
Meu amado escritor Graciliano Ramos escreveu um livro de contos cujo tema era? Insônia. Contos nos quais os personagens assim como eu dariam tudo por uma noite em paz e sem pesadelos vivos.
Certa vez li que Elvis Presley - tomava remédios para dormir e acordar. Deveria ser uma vida triste a vida do garotinho do Mississipi Nunca quis tomar nada para dormir, talvez se saísses da vidinha sedentária e desse mais propósito ao meu dia seria abraçado pela noite além do que me conflita sem paz.
Trabalho à noite, durante o dia sou quase inútil, me abraço então da minha coberta e durmo, mas não sou preguiçoso , sou doente. Porque insônia é doença, o meu corpo não reconhece a noite como tempo de descanso.
Vejo o dia nascer, a alegria dos que acordam, passarinhos cantando, galos anunciando o dia, o céu clareando deixando tudo enamorado com um anil angelical.
O meu vizinho guarda noturno voltando para casa, o senhor vendendo leite, a meretriz cansada afundada em suas orelhas roxeadas, cansada da noite e dos quase homens que passearem por seu corpo, vai dormir durante o dia todo, não saberá das pequenas alegrias que só o dia nos traz.
Para minha alma gêmea de bagaceiras e desilusões, Castro Alves, a noite é uma negra feiticeira. Fecho meus olhos e vejo o poeta da vida, do amor pela vida e liberdade vagante pelo Pelourinho recitando seus poemas, indo para ladeira da Montanha, as prostitutas o abraçam com carinho, não é mais um cliente é um amigo, Castro Alves e suas insônia poética.
Norma Jeane Mortensen, fêmea inventada que deixou de ser mulher, coitada da Monroe afogada em cocaína e calmantes, desesperada pede para dormir enquanto homens de corações sujos se lambuzam sobre seu corpo de mentira, Michael Jackson que preferiu morrer a continuar vagando pela sua mansão entregue aos braços de uma aterradora insônia.
Seu “Moço”, homem sem casa que mora na porta da Santa Casa, “Moço” triste, à noite me disse que não dorme com medo da polícia, ladrões e medo de sonhar. A solidão dos corações os quais por algum motivo deus impede de ser felizes e os amaldiçoaram com pena de nunca adormecerem sem algumas gotas salgadas de insônia.
Meu pai que era vigilante noturno, noites inteiras em forçada insônia para assegurar até hoje meu pão, poesia e sonhos, talvez inimigos sonhos do concreto de vida sempre por mim desejada.
No meu bairro há pessoas que só vejo durante a noite, há os que só podem sair durante a noite, meninos armados, meninas tristes e seus garotos sem nada além do óbvio, uma noite nunca é igual à outra, as noites da Bahia são tão alegres, sou eu tão feliz.
Ps- Artigo escrito ao som de “Mr. Pandeiro”, com Zé Ramalho











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