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“Toda maneira de amor vale a pena”

Os poetas românticos inventaram o amor, em especial o amor idealizado como o conhecemos: amar alguém em profundo idealismo negando ao próprio amor que se manifeste tal como é e seja apenas uma sombra do ego apaixonado e irracional.
Quase sempre agimos assim idealizando em outras pessoas virtudes as quais desejaríamos encontrar em nós mesmos, não suportamos a ideia de que o drama e a comédia são as duas faces da nossa santidade de vidro.
Neste amor idealizado, tudo que amamos amamos primeiro em nós, do coração do outro fazemos casinha de papel que diante a menor contrariedade do nosso desejo romântico de posse incendiamos, o que era amor transformar-se em indiferença em braços dados com o ódio.
Lembro há muitos anos minha amiga Lena se correspondia por cartas com um homem, não havia internet, levava dias para uma carta ir e voltar, tudo que sabia um do outro estava nas cartas, trocaram uma ou duas fotos.
Um dia o homem apareceu, a vida simples de Lena, rosto maltratado por anos de trabalho na cozinha de uma creche, sua pouca demonstração de alegria com o futuro diante a vida dura que levava fez o homem se apavorar.
Mesmo assim, como qualquer animal que se despreze, o tal namorado de Lena, dormiu com ela uma noite, uma única noite. No outro dia saiu cedo e nunca mais voltou deixando para traz uma mulher cansada, triste, com marcas do tempo no rosto e mesmo assim maravilhosa.
Lena amargou tristeza, gozações, aumentara sua falta de crença nos homens, em Deus, na vida e nela mesma até que dois meses depois descobriu está grávida daquele homem que tanto amava ler as palavras em cartas cheias de doces revelações e desejos.
Nasceu uma linda moreninha, hoje já adolescente, nunca viu o pai, Lena não quis mais saber de outro homem, envelhecera muito rápido, cuida da filha com zelo, deu estudo, tem afeto e carinho.
A história de Lena não deu errada por ter ela amado e se entregado a um bem quase virtual, isso poderia ter acontecido se ela tivesse engravidado do seu vizinho, a história ganha ares trágicos tão somente porque ela convidou um estranho a entrar em sua vida através de cartas adocicadas de amor idealizado.
E hoje com tantas redes sociais por aí? Com afeições em bits e bytes, com a possibilidade de interagirmos com dezenas de pessoas? Que tipo de afetividade estamos desenvolvendo? Que tipo de romantismo vai surgir ou já surgiu neste cyber espaço no qual ninguém sabe realmente de ninguém, mas todos parecem esta aqui por uma única emergência: sair da solidão mais do que necessariamente ser amado.
Há um mundo lá fora e nele nosso corpo biológico pede sexo, abraços, zelo e companheirismo. Coisas que no cyber espaço não há,pelo menos tal como as conhecemos. Aqui nossos desejos são estranhamente “espiritualizados”, como se o mundo lá fora não fosse o suficiente para nos trazer alegria, então aqui cada um deus de si seleciona as criaturas para entrar em seu paraíso em que o passaporte não é há fé e sim a capacidade imaginativa.
Rapidamente amizades são construídas e descartadas, paixões são acessas pela manhã e destruídas a noite, heróis e heroínas que duram menos de 24h, gênios da arte e da poesia que desaparecem com a mesma velocidade que surgiram.
Mas vez por outra o desejo pecador, humano, quente, sedutor e profano sente a vontade de sair deste
“paraíso artificial” e chega a hora de Lena encarar seu namorado, tudo pode acabar bem, ou não. Meu amigão Dado Pedreira (http://ribeiropedreira.blogspot.com/) encontrou aqui pelo mundo blogueiro a doce e amável Renata Luciana (http://estadodeentrega.blogspot.com) nunca se viram, logo se amaram virtualmente e hoje estão casados, tudo em menos de dois anos.
A história de Dado e Luciana nos diz que há e pode haver afetividade aqui pelo mundo virtual e essa afetividade pode também ir além dos exageros sentimentais que o distanciamento imposto por esse ambiente garante e unirem-se para o bem concreto de dois corações que se amam sem idealismos desnecessários.
ediney-santana@hotmail.com
http://edineysantana.zip.net/
Artigo escrito ao som de: Paula e Bebeto (Caetano e Milton Nascimento) e Chalana (Mário Zan e Arlindo Pinto) com Almir Sater









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